Elena Ferrante: será ainda ficção ou a autora abriu-nos o seu mundo?

Feminista, mãe solteira, adora rir, não aprecia pizza e raramente come esparguete. Ama plantas e não gosta de entrevistas. Teve distúrbios graves de sono, é dependente de tabaco e café. Ama as filhas, tem mais medo da doença que da morte, vê todos os anos o mesmo filme: Solaris, de Andrei Tarkovsky. Não gosta de pontos de exclamação e tem urgência na escrita.
Elena Ferrante revelou-se ou tudo isto é ainda ficção?
Invenção Ocasional
A Invenção Ocasional, de Elena Ferrante
No outono de 2017, o jornal britânico The Guardian convidou a misteriosa autora Elena Ferrante a escrever uma coluna semanal nas suas páginas. «Depois de muitas hesitações», refere a própria, o convite foi aceite com uma condição: a redação do jornal tinha que enviar as perguntas e a colaboração seria de apenas um ano.

Foi assim que nasceram 51 crónicas, invenções ocasionais, compiladas agora em livro, que versam sobre situações às quais reagimos diariamente «num mundo em que nos aconteceu viver». Ferrante admitiu abordar temas que lhe são caros, como os medos, as filhas, as entrevistas, as dependências, a urgência da escrita, o feminismo ou a finitude da vida.
Um retrato magnificamente bem escrito e ricamente ilustrado, página a página, pelo italiano Andrea Uccini.

Editado em Portugal pela Relógio d’Água, este livro sorve-se como uma guloseima literária que se saboreia e se raciona, uma leitura de cada vez, com o medo que termine por fim.

Espreite o excerto que se segue e comprove por si:
«FIM»
10 de Fevereiro de 2018

«Ouço as minhas amigas e os meus amigos dizerem cada vez mais vezes: o que me faz medo não é a morte, mas a doença. E também eu me sirvo da mesma fórmula. Quando tento desenvolvê-la para a tornar um pouco mais clara, descubro que para mim significa: o que me aterra não é a ideia de deixar de existir, mas os males induzidos pelos tratamentos, pela oscilação entre a ilusão da cura e o desengano, pela agonia. É como se confessasse que aquilo que realmente me preocupa é o fim da boa saúde com tudo o que isso comporta: debilitação, inactividade progressiva, redução do prazer à simples constatação de que continuo a ser “eu” e de que, por agora, continuo a viver. A ideia da morte propriamente dita, por conseguinte, parece-me cada vez mais diluída. O que em contrapartida me aterroriza é o fim do pleno gozo da vida. Tal depende do facto de, no que me diz respeito, a crença em qualquer além se ter tornado, de há muito, bastante fraca.
(…)
A morte é último ponto do segmento de vida que por acaso nos tocou. É por isso que a minha atenção, como a de tantos outros, se concentrou não no morrer, mas no viver. Desejamo-nos que a vida seja o mais longa possível, mas (…)

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