Do lado de fora

Por Álvaro Curia
20 de fevereiro de 2025
Por vezes, não são as personagens principais quem tem mão nos acontecimentos. Centram-se no papel de observar e dar o seu ponto de vista perante uma história que se desenrola. Romances chave, ensaios, literatura de proa para compreender o mundo aos olhos dos outros.
Brasil – Um país do Futuro
Não é de agora que este epíteto está associado ao Brasil. A ideia de um território de olhos postos num futuro que nunca chega perpassa muitas das produções culturais brasileiras, sobretudo as anteriores à década de 60 do séc. XX, contrariada apenas pelos tropicalistas, que rebatem esta ideia de um país em constante espera. Neste livro, contudo, estamos no início da década de 40 e o olhar sobre o Brasil é-nos dado por um estrangeiro. Mas não é um estrangeiro qualquer. É Stefan Zweig, célebre autor, que viria a morrer apenas um ano após a publicação da obra. Nela, o autor reflete sobre a sua experiência de vida no Brasil, bem como as suas viagens pelo país, sobretudo Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e São Paulo. É uma leitura muito interessante, obviamente datada àquela época, mas que serve para perceber a visão do outro perante uma terra que, por coincidência histórica e cultural, nos diz tanto a nós, portugueses.
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O Delfim
O Delfim, de José Cardoso Pires, é um romance publicado em 1968 que retrata a decadência da aristocracia rural portuguesa. A história é narrada por um observador externo que regressa à antiga propriedade dos Palma Bravo, onde uma lagoa parece guiar todos os olhares dos habitantes. É esta personagem, um escritor, que reconstrói os acontecimentos a partir de vestígios e lembranças. Embora mantendo uma postura distante, o narrador descreve com precisão a atmosfera opressiva da casa senhorial, a relação ambígua entre Tomás Manuel e sua mulher, Maria das Mercês e o ambiente social anterior ao 25 de Abril. A figura misteriosa do criado, Domingos, só encontra par na atmosfera híbrida entre lagoa e mar, caça e caçados, ruralidade e urbanidade. A linguagem concisa e a estrutura fragmentada reforçam a sensação de mistério e inevitabilidade, criando uma narrativa marcada pela ausência e pelo silêncio. É um dos romances mais representativos da Nova Literatura portuguesa dos anos 60 do séc. XX.
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O Verão Selvagem dos teus olhos
Há, em certos romances, algo que transcende as páginas da História e se entrelaça num imaginário que faz com que se misturem mundos. De repente, a epistemologia dá lugar à ontologia. Onde nos situamos, em que realidade estamos? Ana Teresa Pereira escreve a visão de Rebecca, personagem principal do romance homónimo de Daphne du Maurier. Como é que a falecida esposa de Mr. De Winter viu a chegada a Manderlay da sua substituta? Por onde andou, por onde vagueou? Sabemos, neste livro, que continuou a cuidar dos seus rododendros, a beijar as suas camélias e a olhar pelos seus cães. Mas o que sentiu perante um mundo a acontecer após a sua morte? Um romance que dá voz à personagem ausente, trazendo-a para cena e conversando com o leitor.
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A Costa dos Murmúrios
Um dos romances maiores da ficção contemporânea nacional. A autora leva-nos a Moçambique, a um hotel, a uma festa…. Estamos em vésperas de algo, nas manhãs do fim de um conflito, que se reacende noutro. Enquanto país colonizador, os ecos de Portugal chegam a África como convulsões, que encontram no bafo pegajoso dos trópicos uma parede de impossibilidades, à qual se junta um tipo de cerco que observa de cima para baixo. Por que razão, afinal, os nativos estão a morrer sem que disso ninguém pareça fazer caso? A noiva observa e através do seu olhar temos o retrato de um país à beira do precipício, num lugar que também não é de segurança. A escrita de Lídia Jorge aporta-nos numa terra, dá-nos a conhecer os tons do sol no rio, os flamingos, as palmeiras e o sufoco.
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