Descobrimos o 'Filho da Mãe'

Hugo Gonçalves estreia-se na Companhia das Letras com este livro.
Primeiras páginas
Filho da Mãe, de Hugo Gonçalves
Hugo Gonçalves regressou e tocou, porventura, na ferida mais dolorosa capaz de sentir o ser humano.
Filho da Mãe é o resultado de uma investigação pessoal, um testemunho autobiográfico, uma viagem no espaço e na memória sobre o que é crescer sem mãe. O relato da perda e a dor no seu estado mais puro, mas também a homenagem na sua forma mais bela.
Uma obra feita de vida, mas que se lê como ficção.

Nós fomos descobri-la e partilhamos consigo as primeiras páginas em exclusivo.

EXCERTO DO LIVRO
Nos picos da Macaronésia vi um avião

No dia 13 de março de 1985, uma amiga da minha mãe esperou que eu chegasse do colégio e, após aliviar-me do peso a mochila, diante da porta de minha casa, disse: «Sabes que a tua mãe estava a sofrer, não sabes? Ela agora já não está a sofrer mais.»
A minha mãe chamava-se Rosa Maria e morrera de madrugada, com trinta e dois anos, num hospital em Londres, a dois mil quilómetros dos filhos. Não fui ao velório, ao funeral ou à missa do sétimo dia. Nunca ninguém me disse: «A tua mãe morreu de cancro», tal como antes ninguém me dissera: «A tua mãe tem cancro.»
Quando regressei ao apartamento onde vivíamos, após uma semana em casa de amigos da família, fui investigar todas as divisões, queria confirmar que a minha mãe não morrera, que se tratava de uma partida dos adultos, de um erro que podia ser revertido. Mas ela não estava lá. Nunca mais esteve.

Em 2015, a minha avó materna entregou-me o testamento do meu avô dentro de um saco de plástico. Estávamos na cozinha de sua casa, onde tantas vezes almoçáramos em família, mas agora éramos apenas a viúva e o órfão que faziam a transferência das agruras e dos subterfúgios que passam de geração em geração.
Imaginei que a entrega daquela pasta com documentos era uma espécie de ritual de crescimento que, além de assinalar as mudanças recentes na minha vida — o regresso a Lisboa, após vários anos a morar no Brasil, e o fim do meu casamento —, impunha também uma constatação inadiável: com trinta e nove anos, eu passara o arco da existência em que já não fantasiamos exclusivamente com o futuro e somos compelidos a entender o passado.
Naquele gesto da avó Margarida, além do simbolismo que eu lhe atribuía, havia também algo de corriqueiro, como se eu fosse ainda a criança a quem ela mandava fazer recados. O alívio com que os seus dedos se soltaram do saco de plástico, tal como o cabelo despenteado e o copo da dentadura em cima da bancada da cozinha, fez-me suspeitar que ela nunca olhara sequer para os papéis. Com oitenta e um anos, tendo já passado pela morte do marido e de dois filhos, era possível que se atribuísse o direito de delegar nos mais novos os deveres burocráticos da família. Conheceu o meu avô quando tinha dezasseis anos. Em mais de seis décadas de vida em comum, descobriu-lhe uma amante de longa duração, falsificou a sua assinatura em cheques e empurrou-o numa cadeira de rodas. Mas agora o drama esgotara-se. E o que tinha de acontecer já acontecera. O avô Daniel tinha morrido três anos antes. Para a minha avó, não havia nenhum volte-face dentro daquele saco. Para mim, tão-pouco. Não esperava encontrar revelações, heranças ou pistas sobre um enigma genealógico. Ainda assim, sabia que a viagem de regresso ao dia 13 de março de 1985 começaria quando abrisse aquele saco de plástico.
(…)

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