Colin Ellard: «O lugar onde estamos exerce um profundo impacto naquilo que somos»

Colin Ellard estuda o efeito psicológico do design urbano e do stresse próprio das grandes cidades no ser humano. É um autor de referência nesta área e acaba de publicar em Portugal o livro 'A Alma dos Lugares', no qual visita as profundezas da nossa mente para nos explicar porque é que nos sentimos abismados no Grand Canyon ou na Basílica de São Pedro ou, por exemplo, porque é que preferimos a natureza a salas lotadas.
«A Alma dos Lugares» (Places of the Heart) é o seu primeiro livro editado em Portugal. Explique-nos o que é a Psicogeografia.
A Psicogeografia é o estudo da relação entre os “cenários” que compõem as nossas vidas – interiores, edifícios, ruas – e a forma como nos sentimos. Estejamos conscientes disso ou não no próprio momento, o local onde estamos exerce um impacto profundo naquilo que somos.
Colin Ellard
Collin Ellard é professor de psicologia, especializado em neurociência cognitiva
Há quanto tempo estuda sobre o tema e por que motivo lhe desperta tanto interesse?
De uma forma ou outra, tenho estudado psicogeografia há cerca de 30 anos, contudo, grande parte dos meus primeiros estudos baseavam-se em questões muito simples como, por exemplo, como todos os animais, incluindo os seres humanos, ocupam e usam o espaço. Foi apenas nos últimos 10 anos que me decidi focar na influência que locais construídos por seres humanos podem ter em termos comportamentais. Isso é algo que me interessa bastante, porque passamos grande parte do nosso tempo em locais desenhados e construídos por outras pessoas, sem que muitas vezes ter noção do “poder” desse espaço. Assim que abrimos os olhos para o impacto do design nas nossas vidas e nas nossas mentes, é extremamente difícil voltar a sentir o que se sentia anteriormente quanto ao mundo.
         

«O nosso humor pode mudar com os mais pequenos detalhes superficiais»


São os lugares que nos mudam ou somos nós que mudamos os lugares?
Ambos! Alguns animais são capazes de construir coisas: os pássaros e as térmitas fazem ninhos, outros escavam buracos, mas os seres humanos levaram as coisas ao extremo. Nós construímos coisas para tenham funções, significado, beleza, como forma de dissidência, de exercer poder sobre outrem e por inúmeras outras razões. Contudo, as construções também nos “fazem a nós”. Em termos de design podem afetar onde vamos e o nosso humor pode até mudar devido aos mais pequenos detalhes superficiais.

Como é que se explica a nossa preferência por determinados espaços em detrimento de outros, por exemplo, a natureza?
Em parte, as nossas preferências têm por base influências ancestrais e herdadas que se relacionam com a necessidade de sobrevivência. Muitas pessoas, por exemplo, preferem viver em locais onde possam apreciar uma boa paisagem, enquanto outras preferem estar mais isoladas. Se essa lógica for aplicada em termos de onde as pessoas se preferem sentar num restaurante ou praça, muitos ocupam as extremidades. Estas escolhas devem-se muito provavelmente a impulsos antigos ligados à escolha de habitats seguros. Os ambientes modernos não são tão ameaçadores como outrora, mas essas influências ainda moldam o nosso comportamento.

Neste livro, há um capítulo dedicado ao «Futuro da Casa», onde nos diz que, em breve poderemos ter casas com design sensível, isto é, uma arquitetura capaz de reagir e interagir com os seus utilizadores.
Isto não é assustador?

Sim, e em mais do que uma forma. Tentei transmitir essa ambivalência no meu livro. Não é difícil imaginar razões pelas quais alguma interatividade nos nossos lares pode ser algo bom. Existem pessoas que gostariam de ter “termóstatos” que monitorizassem o nosso comportamento e ajustassem o ambiente de forma adequada. Por outro lado, a ideia de que a nossa casa “nos ama” e tenta tomar conta de nós pode ser algo “asfixiante” e invasivo. Para que fique claro, não estou necessariamente a promover a ideia de que este tipo de arquitetura deva ser a ambição de todos, mas é algo que vejo a acontecer eventualmente e devemos pensar seriamente nisso. Um pequeno exemplo disto, apesar de não ser sobre arquitetura, foi o aparecimento de dispositivos inteligentes dentro de casa das pessoas (como a Alexa). Aí, já temos de pensar em termos de privacidade, controlo e vigilância.

Deixar que a tecnologia invada o nosso espaço íntimo e condicione a nossa vida a ponto de não termos sequer que pensar é o futuro que queremos? Que riscos é que este cenário comporta?
É certamente possível. Um exemplo que me vem sempre à mente é o caso de uma familiar minha, já falecida, que vivia numa quinta num local remoto do Canadá. Ele aquecia a sua casa com ajuda de um grande forno de madeira que tinha na cozinha. Isso significava que teria de haver sempre um stock de lenha por perto, que o forno fosse atiçado quando ia dormir e que adaptasse os seus hábitos à previsão meteorológica. Todas estas tarefas, por mais chatas que possam parecer, ligavam-na ao mundo. Ela tinha de estar em contacto com o seu filho (ou comigo quando a visitava) de forma a que houvesse sempre lenha e com o mundo para saber que tempo faria nos dias seguintes. A geração tecnológica atual e o que o futuro trará, pode enfrentar o mesmo tipo de problemas. Ser protegido do que é real pode ser confortável por vezes, mas creio que também haverão perdas.

«Temos a capacidade de nos começarmos a apaixonar por um edifício ou por um lugar tal como começamos a apaixonar-nos por uma pessoa», admite no seu livro. Fiquei impressionada com esta afirmação.
Amor! Gostaria de ter algo sensato para dizer sobre uma palavra tão difícil! Acho mesmo que em alguns aspetos podemos ter um grande afeto por um local. Eu próprio tenho locais favoritos e sinto a sua falta quando me encontro longe deles. Tenho a certeza que quando me encontro lá, estou a produzir os mesmos tipos de alterações neuroquímicas que acontecem quando estou ao lado da mulher que amo. Existem, claro, algumas diferenças. Algumas pessoas afirmam que têm todo o tipo de sentimentos por edifícios, chegando mesmo a ter cerimónias de casamento com estruturas físicas. Eu não diria que isto é algo “normal” e sinceramente não sei mesmo o que pensar disso para lá de que a diferença é uma das coisas que nos torna tão belos. Somos todos diferentes.

Qual foi o último livro que leu?
Venice, Pure City. Foi escrito por Peter Ackroyd, um psicogeógrafo fantástico. O último livro que o meu pai leu era sobre Londres e também foi escrito por ele, daí ter valor sentimental. Caso tenham curiosidade em saber em algo interessante sobre um local (assim que terminarem de ler o meu livro) recomendo que o leiam.

Que momentos na sua vida lhe dão conforto?
Eu medito, por isso, penso nos meus pequenos momentos de mindfulness que podem acontecer em qualquer lugar, a qualquer hora do dia. Claro que também me ocorrem alguns locais. Adoro estar na natureza e tenho alguns lugares secretos por onde gosto de caminhar.

Se tivesse um superpoder, qual seria?
A pergunta mais difícil ficou para o fim! Acho que gostaria de poder definir a duração da minha própria vida. Tenho quase a certeza que ser imortal seria chato depois dos primeiros milénios, por isso gostaria de ter a oportunidade de viver até quando quisesse. Há tanto para experimentar que nem sei como pode caber tudo dentro do tempo que nos é concedido. Talvez 500 anos fossem suficientes.

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