Catarina Beato: «Aceitarmos o que somos é transformador»

A ideia de que podemos ser felizes todos os dias não é uma “obrigação” demasiado utópica?
Já percebi que ainda não leram o livro! É exactamente essa a ideia que é desconstruída. Ser feliz todos os dias significa aceitarmos os dias péssimos, a tristeza. Ser feliz também não é sinónimo de estarmos sempre sorridentes. A única sugestão que dou é que seja disciplinados no exercício de tentar ser um pouco mais feliz todos os dias. E às vezes basta aceitar que as coisas não estão bem para nos sentirmos melhor.
Entrevista a Catarina Beato
A autora, Catarina Beato
Em que medida é que este livro pode transformar a vida de uma pessoa?
Ver a felicidade como uma opção, uma decisão pessoal que está nas nossas mãos, é transformador. Podem dizer-me que são tretas porque depende das circunstâncias e eu poderei apresentar algumas pessoas que, mesmo perante as maiores adversidades escolheram ser felizes. Essas pessoas não choram? Claro que choram! Mas escolhem limpar as lágrimas e ver as coisas boas da vida. Pensar positivo e agir de forma positiva é transformador. Aceitar quem somos é transformador.

Os três “verbos de ordem” são: Aceitar, Mudar, Agradecer. Se aceitamos alguma coisa, porque precisamos de a mudar?
Aceitar e mudar não são verbos antónimos, são complementares. A questão está apenas em perceber aquilo que temos de aceitar e as coisas que merecem a nossa energia para serem mudadas. Aceitar não é desistir da mudança. Até vou mais longe, no momento em que aceitamos percebemos o que realmente queremos mudar. Dou o exemplo do peso porque me é muito próximo. Só quando aceitei o meu corpo percebi que queria apenas mudar a qualidade do que como e ter um estilo de vida mais saudável, e não ver um número mais baixo na balança. Agora tenho foco nas minhas mudanças. Porque aceitei.

Qual é o segredo para se conseguir gerir uma família numerosa, amamentar, fazer tarefas domésticas, treinar, ter tempo para o casal, ser-se ativa nas redes sociais e num blogue e ainda escrever um livro?
Eu diria que o truque é fazer algumas delas coisas ao mesmo tempo (e aceitar que nem sempre fica tudo bem feito). Eu tenho a vantagem (e desvantagem) de trabalhar em casa. Nos tempos mortos do trabalho faço as tarefas domésticas, escrevo depois de estarem todos a dormir. Às vezes, é cansativo mas quase sempre é um grande privilégio.

Wook mina mais rapidamente a auto-estima: uma pessoa tóxica à nossa volta ou os sentimentos de culpa diários?
Aquilo que destrói a auto estima é a não aceitação. Mas aquilo que leva à não aceitação é um conjunto avassalador de pequenas coisas ao longo da vida, que junta pessoas tóxicas, sentimentos de culpa, comparações e comentários destrutivos. Escolher dar a volta a tudo isto dá trabalho. Mas vale o esforço.

Num livro recheado de conselhos, qual é o mais importante de todos?
Antes de fechar os olhos escolher o melhor do seu dia e adormecer com essa imagem. Ganhar fôlego para um dia melhor valorizando e agradecendo o que aconteceu de bom, mesmo que seja difícil de encontrar.

Nomeie uma coisa que não gosta que lhe digam.
Detesto que me digam que dou erros a escrever (mas às vezes é verdade). Detesto que digam seja o que for de menos bom sobre os meus filhos porque são obviamente perfeitos. E não sendo, só eu é que posso dizer mal.

Escrever dá ou tira energia?
Depende dos assuntos e dos prazos. Escrever para alinhar ideias dá energia. E mesmo que não dê no momento imediato dará a longo prazo, é libertador. Escrever como emprego/profissão tem dias chatos. Mas acredito que muito menos dias chatos que outras profissões.

Qual foi o último livro que leu e o que achou dele?
“Escuta o teu corpo”, Francisca Guimarães. Foi a confirmação daquilo que já conheci da autora e mais um passo no caminho da minha aceitação. É um livro que transmite paz (e isso faz falta na correria da vida).

Wook tem vergonha de nunca ter lido?
O Capital de Karl Marx. Teria sido importante na minha adolescência.

Nos dias mais negros, em que tudo parece desabar, consegue ver sempre “o copo meio cheio”?
A minha primeira reação é destrutiva e pessimista mas isso dura apenas um segundo. Depois contrario, penso em coisas boas, mudo a direcção dos meus pensamentos. Eu sou naturalmente trombuda e existencialista mas a vida foi mudando isso. E nos segundos depois do “copo já partido” até o consigo ver completamente cheio.

Tem cinco livros publicados. O sexto está a ser planeado?
Há sempre um livro novo a ser planeado. Não sou escritora mas não imagino a minha vida sem escrever.

Se tivesse um superpoder, qual seria?
Curar. Ninguém ficaria doente. A doença do meu pai foi o momento mais triste da minha vida mas foi também o mais transformador. Na verdade, é a única coisa que peço: saúde para mim e para os meus. O resto nós resolvemos.

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