«Burgueses somos nós todos ou ainda menos»

Foi buscar o título a um poema de Mário Cesariny, mas a escrita é inconfundível. Conheça o novo livro do escritor Mário de Carvalho.
«Burgueses Somos Nós Todos ou Ainda Menos» é o novo livro de Mário de Carvalho
As capas dos livros de Mário de Carvalho são sempre o melhor introito para o que se segue – e esta não é exceção. Depois, como já lhe conhecemos a escrita, multipremiada e arguta, não vamos ao engano: da primeira à última página, este livro de contos devora-se com a sofreguidão típica das palavras que conquistam.

Espreite este breve excerto:
A TRAMA PÓSTUMA
« - E se me deixasses entrar?
Ela estava a tratar-me por tu. Excesso de confiança. Lá por me ter deitado com alguém não me vejo obrigado a certas intimidades.
- Nem sei que diga - suspirou Noémia, já sentada no canapé às listas, suposto de família.
- Ainda me sinto pouco à vontade no papel de viúvo. Nunca tinha experimentado - respondi eu.
- É o cinismo do costume, Rogério? - Lábio e cenho empertigados, olhar de lado, pronta a despiques. Daqueles que acabam em rendição.
- Não estou preparado para a viuvez. Não me é habitual. É tudo.
Ela hesitou entre o desconfiado e o maternal. Ganhou o maternal, que ia tomando, pouco a pouco, um travo sedutor. Falou, falou, falou… De vez em quando, sem interromper a desenvoltura, erguia os olhos e passava a língua pelo lábido superior. Incomodava-me ouvir a falecida refigurada por aquela memória e por aquela imaginação. Percebia-se que não era íntimas e que o abstracto exercício de bendizer se poderia aplicar ao lado apresentável de quem quer que fosse.
Interrompi-a de súbito:
- Você não está arrependida?
- De quê?
(…)

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