«Nessa manhã era o universo …»

12 de novembro de 2025
Obra Poética III é o terceiro e último volume dos livros de poesia inéditos de António Ramos Rosa. Em conjunto, perfazem quase três mil páginas, todas elas se completando, cada uma se destacando.
Escolhemos, deste derradeiro volume, três belíssimos poemas.



«Nessa manhã era o universo. Tudo era pretexto para a oferenda no aroma essencial do olhar. O silêncio era o sal de um começo infinito e o pensamento pesava o incomparável nas ténues e flexíveis balanças das ervas. No pulmão da água cintilava a folhagem da luz e minúsculas mãos jorravam dos seus orifícios solares. Na aérea fragilidade dos passos, pertencia ao suave movimento do dia e recebia no rosto o sopro cálido e sumptuoso das essências ardentes de uma matéria feliz.»

«De súbito a frondosa e suave coincidência do silêncio. Uma cabeça finalmente habitável na simplicidade inicial da sua fértil vacuidade. Reconhecimento sem procura e sem imagens da primeira vibração silenciosa como se o corpo tivesse regressado ao seu sopro original e, na sua ignorância viva, e na sua inocência desabrochada, o presente fosse soberano.»

Poemas de O que não pode ser dito, António Ramos Rosa – OBRA POÉTICA III, Assírio & Alvim, novembro de 2025, p. 641


«Às vezes uma mão arcaica conduz o poema
a uma velha mansão de pedra
onde adormece um corpo nu
de obsidiana branca
sobre um leito de musgo entre veios de água

e então vemos a placidez do esplendor
no seu repouso de morosa matéria
como uma guitarra universal
que tivesse surgido de uma onda apaixonada

Poderá a palavra ser embriagada e nua
como uma oferenda e um hálito de flor
para dizer do esplendor o veludo
no seu límpido espaço de núpcias vegetais?»

Poema de As Palavras, António Ramos Rosa – OBRA POÉTICA III, Assírio & Alvim, novembro de 2025, p. 312

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