O que Podemos Saber, o novo romance de Ian McEwan

Vera Dantas
18 de setembro de 2025
«O que Podemos Saber é ficção científica sem a ciência. Este é um romance sobre História, o que sabemos sobre ela, e uns dos outros. Vivemos as nossas vidas entre os mortos e os que ainda estão por nascer. Sobre os mortos, sabemos um pouco, mas não tanto quanto pensamos. Sobre o presente, discordamos veementemente. As pessoas do futuro, é claro, estão além da nossa compreensão, mas estamos preocupados com o que lhes legaremos. Quando olharem para o que fizemos, o que pensarão os nossos descendentes quando contemplarem o mundo desgastado que lhes deixámos? Talvez tenham inveja de nós. (…)
A minha ambição neste romance era permitir que o passado, o presente e o futuro falassem entre si, ultrapassando as barreiras do tempo.»

No seu website oficial, Ian McEwan descreve desta forma O que Podemos Saber, o seu novo romance. Amplamente conhecido e elogiado pela beleza da sua escrita, pelos seus temas inovadores, personagens realistas e dilemas morais, McEwan leva-nos agora a níveis novos níveis de profundidade psicológica, numa reflexão sobre a nossa condição de humanos, repleta de incertezas, marcada por conflitos, e sempre interligada por um fio que une passado e presente, pessoas e memórias.
Eis o enredo: Daqui a um século, em 2119, o clima está devastado: a inteligência artificial liderou guerras nucleares entre potências mundiais; uma bomba de hidrogénio russa, ao falhar o seu alvo nos EUA, explodiu no Atlântico, causando um tsunami que, combinado com o aumento do nível do mar, inundou todo o planeta. Apenas restou um arquipélago de picos montanhosos que se estende por toda a Europa. A população mundial diminuiu para metade; a esperança de vida caiu para 62 anos; a Grã-Bretanha é agora um conjunto de ilhas cujos cidadãos vivem de proteínas extraídas do dióxido de carbono. Neste futuro repleto de tecnologia, mas carente do básico, as comunidades estão isoladas, e viajar é difícil e arriscado.

É neste cenário que encontramos Tom Metcalfe, um professor universitário que ensina literatura aos seus alunos com entusiasmo, e cuja obsessão académica é o poeta do final do século XX Francis Blundy. O seu fascínio resulta do facto de Blundy ter escrito, em 2014, 15 sonetos para a sua esposa, Vivien, a quem confiou a única cópia, num pergaminho. O desaparecimento deste conferiu ao poema um estatuto mítico, com a lenda de que o poema fala de amor eterno e é um farol para a preservação do mundo natural.
Tom dedica-se, com a esposa, a analisar a vida dos Blundys na expetativa de descobrir o paradeiro do poema. Numa segunda parte, McEwan muda de narrador, dando voz ao testemunho de Vivien na primeira pessoa – escrito durante o confinamento em 2020 e selado no subsolo. Havia partes importantes e intensamente privadas da vida de Vivien que não tinham sido documentadas, e que acabam por revelar relações secretas, uma história com tragédia, amor e perda, revirando do avesso as pesquisas de Tom. Assim como não podemos saber o futuro, também não podemos conhecer totalmente o passado.

Fazendo uso do seu talento para o macabro, McEwan deixa, de forma melodramática, a sugestão de que, «o que podemos saber» é sempre praticamente nada — e que talvez isso seja mesmo o melhor.

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