Continente, um poema de Marta Chaves
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22 de maio de 2025
Marta Chaves acaba de lançar Intervalo, um livro de poemas que parte de uma reflexão de Ésquilo sobre a guerra e a vingança das suas vítimas. Entre a resistência e uma aceitação das derrotas diárias, a autora regressa, depois de Avalanche, com o seu estilo límpido e claro.
CONTINENTE
Devolvo as palavras às pessoas.
Reconstituo-as através dos seus olhos
e das suas bocas.
Supero no que me é alheio o aprisionamento dos ditados e crenças,
resgato-as e vejo nos rostos
a vontade boa de se libertarem.
Sou um espelho no qual se reencontram
e vejo-as espantadas por verem e serem vistas.
Socorro-as das imagens, dos abusos da linguagem
que as deformaram e cristalizaram.
Digo o que as pessoas não percebem que dizem
e tenho como instrumento as mesmas palavras.
Passo a limpo o que as pessoas por si não limpam.
Devolvo retratos, sobretudo um trato e atenção
que tornam as pessoas dignas de si próprias.
Saio do silêncio para dar voz ao que está calado.
Acolho, em enchentes de linguagem,
a tristeza acordada.
Marta Chaves, Intervalo, Assírio & Alvim, maio de 2025, p. 18.
CONTINENTE
Devolvo as palavras às pessoas.
Reconstituo-as através dos seus olhos
e das suas bocas.
Supero no que me é alheio o aprisionamento dos ditados e crenças,
resgato-as e vejo nos rostos
a vontade boa de se libertarem.
Sou um espelho no qual se reencontram
e vejo-as espantadas por verem e serem vistas.
Socorro-as das imagens, dos abusos da linguagem
que as deformaram e cristalizaram.
Digo o que as pessoas não percebem que dizem
e tenho como instrumento as mesmas palavras.
Passo a limpo o que as pessoas por si não limpam.
Devolvo retratos, sobretudo um trato e atenção
que tornam as pessoas dignas de si próprias.
Saio do silêncio para dar voz ao que está calado.
Acolho, em enchentes de linguagem,
a tristeza acordada.
Marta Chaves, Intervalo, Assírio & Alvim, maio de 2025, p. 18.