Entrevista a Margarida Rebelo Pinto

Vera Dantas
15 de abril de 2025
Margarida Rebelo Pinto é conhecida pelos seus romances que exploram temas como o amor, as relações humanas e o quotidiano contemporâneo. Desde a estreia com Sei Lá , em 1999, tornou-se uma das autoras mais populares em Portugal, com vários bestsellers no currículo. Com 30 livros publicados, a sua obra literárira abarca os géneros epistolar, infantil, romance histórico e romance contemporâneo.
O seu livro mais recente, A Grande Ilusão, marca um regresso à escrita intimista e reflexiva, abordando o desencanto e a complexidade dos sentimentos nas relações modernas. De forma direta e franca, a autora explora a vida depois dos 50, num retrato da geração que é a sua, com as suas vitórias mas também com todas as suas desilusões, numa narrativa em que as relações são o grande e insubstituível fio condutor.
Margarida Rebelo Pinto, Foto © Bernardo Coelho


A amizade entre Bárbara e Rita é um dos pilares da história. Como construiu essa relação e o que quis transmitir com ela?
A amizade entre Bárbara e Rita é um reflexo da cumplicidade feminina, das confidências partilhadas e da lealdade que se constrói ao longo dos anos. Quis mostrar como uma verdadeira amizade pode ser um porto seguro e, ao mesmo tempo, um espelho das nossas próprias fragilidades.

A solidão numa geração que conquistou estabilidade e sucesso é um tema central do livro. O que a levou a explorar essa questão?
Vivemos numa era em que a independência e o sucesso profissional são muito valorizados, mas, paradoxalmente, muitas pessoas sentem-se mais sozinhas do que nunca. Achei importante abordar esse paradoxo e refletir sobre o que realmente significa ter uma vida plena. Os personagens enfrentam dilemas emocionais e relacionais que nos são familiares e próximos. Quis fazer um retrato tão apurado quanto possível da Geração X.
Os personagens enfrentam dilemas emocionais e relacionais muito reais. Alguma destas histórias foi inspirada em casos reais ou experiências próximas?
Sempre me inspirei na vida real para criar personagens e histórias. Algumas experiências são minhas, outras vêm de relatos de amigos ou até de desconhecidos que se cruzam no meu caminho através das redes sociais. A ficção, para mim, é uma forma de transformar o real em algo universal.
 
«Quis fazer um retrato tão apurado quanto possível da Geração X»
Há alguma personagem que tenha mudado muito ao longo da escrita? E é frequente isso acontecer nos seus livros?
Sim, a Bárbara passou por várias transformações enquanto escrevia. Inicialmente, era uma personagem mais segura, mas percebi que era essencial expor as suas vulnerabilidades. Isso acontece frequentemente nos meus livros – as personagens ganham vida própria e levam-me por caminhos inesperados. A Rita faz o percurso inverso, sai de um lugar de tristeza e desalento para um lugar de leveza, de alegria e de esperança.

O livro aborda traição, desencontros amorosos e dúvidas sobre o futuro. Podemos vê-lo como um retrato da geração atual?
Definitivamente. A Grande Ilusão fala de uma geração que teve oportunidades que as anteriores não tiveram, mas que ainda assim se debate com as mesmas inquietações: amor, solidão, expectativas e desilusões.
Se os leitores levassem apenas uma grande reflexão deste livro, qual gostaria que fosse?
Que a felicidade não é um destino, mas um caminho. E que, muitas vezes, é preciso desconstruir ilusões para conseguirmos realmente encontrar aquilo que nos faz bem.

Qual a pior e a melhor parte de ser escritora?
A melhor parte é poder transformar ideias e sentimentos em histórias que tocam os leitores. A pior parte é a solidão do processo de escrita e a vulnerabilidade de expor as minhas emoções no papel.

Wook gostaria de ler sobre si?
Que sou uma contadora de histórias apaixonada pela complexidade das relações humanas e que, através dos meus livros, procuro sempre explorar as emoções que nos fazem quem somos.

Pode nomear três autores que a inspiram?
Posso nomear mais alguns? F. Scott Fitzgerald, Marguerite Yourcenar, Milan Kundera, Murakami e Agustina Bessa-Luís .
 
« É preciso desconstruir ilusões para conseguirmos realmente encontrar aquilo que nos faz bem.»
Wook mal pode esperar para ler?
Estou particularmente curiosa para ler o próximo romance de Elena Ferrante.

Quer contar-nos alguns dos seus projetos para o futuro?
Continuar a escrever, claro! Já tenho ideias a fervilhar para um novo romance, estou aliás indecisa ente duas ideias e estou também a explorar outros formatos, quem sabe até uma adaptação cinematográfica de uma das minhas obras.

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