Até ao fim do verão

Zé Livreiro
@confissoesdumlivreiro
21 de julho de 2026
Alguns livros pedem apenas um fim de semana. Outros reclamam uma estação inteira. Não porque sejam difíceis, mas porque nos convidam a passar muito tempo com as suas personagens e o universo que constroem. Durante o resto do ano, nem sempre é fácil encontrar esse tempo. O verão muda as regras. Os dias esticam-se, as férias oferecem um ritmo diferente e, pela primeira vez em muitos meses, um romance de seiscentas ou setecentas páginas deixa de parecer um compromisso impossível. Os cinco livros que se seguem têm pouco em comum à primeira vista. Entre eles encontramos uma grande saga familiar, um clássico americano, um romance experimental, uma narrativa contemporânea construída em fragmentos e um western que está muito longe dos clichés do género. Todos recompensam o tempo que lhes dedicamos. Não se esgotam na história que contam. Quanto mais tempo passamos com eles, mais há a descobrir.
A Leste do Paraíso, de John Steinbeck
Quando John Steinbeck terminou A Leste do Paraíso, disse ao seu editor que tudo o que tinha publicado até então tinha servido para preparar aquele livro. Mais de setenta anos depois, é difícil discordar das suas palavras. À superfície, a história acompanha duas famílias, os Trask e os Hamilton, ao longo de várias décadas. Embora a narrativa atravesse diferentes momentos da História americana, Steinbeck interessa-se sobretudo pela forma como os pais moldam a vida dos filhos. As rivalidades mudam de protagonistas, os erros repetem-se e cada geração herda conflitos que julgava pertencer à anterior. É neste contexto que conhecemos Cathy Ames, uma personagem que conquistou um lugar de destaque na literatura mundial. Bastam poucas páginas na sua companhia para perceber porquê. Manipuladora e incapaz de sentir remorso, altera a vida de todos os que a rodeiam. Ainda assim, o romance nunca depende apenas dela. Lee, Adam Trask e Samuel Hamilton dão-lhe o contraponto necessário e impedem que a história se transforme numa visão fatalista da natureza humana. Um dos momentos decisivos da obra gira em torno da palavra hebraica timshel ("tu podes"). A discussão sobre o seu significado ocupa apenas algumas páginas, mas ilumina todo o romance. Para Steinbeck, o passado pesa, mas não decide. Herdamos muito da família em que nascemos, mas continuamos livres para escolher outro caminho. É essa convicção que faz de A Leste do Paraíso muito mais do que uma saga familiar.
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V., de Thomas Pynchon
Por vezes, tudo começa com uma obsessão. Herbert Stencil passa anos a tentar descobrir quem é, ou o que é, "V.". Pode ser uma mulher misteriosa, uma cidade, uma ideia ou um padrão escondido na História. Na tentativa de responder a essa pergunta, segue um rasto de documentos e episódios históricos espalhados por diferentes países. Noutro registo, surge Benny Profane, um jovem sem rumo que vagueia por Nova Iorque ao lado de um grupo de amigos tão errático quanto ele. À primeira vista, estas duas histórias parecem não ter qualquer ligação. Mas, pouco a pouco, detalhes que pareciam irrelevantes regressam com um novo significado. Percebemos então que Thomas Pynchon nos foi dando as peças deste puzzle desde o início, sem nunca mostrar como encaixam entre si. Apesar da reputação de romance difícil, há nestas páginas um humor absurdo que torna a leitura estimulante. Não é um livro para ler à pressa. Exige alguma disponibilidade, mas recompensa quem aceita entrar no seu jogo. Talvez seja por isso uma excelente companhia para os dias longos de verão. Se estiverem a lê-lo na praia, não estranhem dar por vocês de olhos postos no horizonte, a perguntar: «Mas o que é que se passa com estas pessoas?».
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As Correções, de Jonathan Franzen
Os Lambert já conheceram dias melhores. Alfred, o pai, vê a doença de Parkinson roubar-lhe lentamente a autonomia. A sua mulher, Enid, recusa aceitar que a família se desfez e sonha reunir os três filhos para um último Natal em casa. Mas Gary, Chip e Denise vivem absorvidos pelos próprios problemas, divididos entre carreiras instáveis, relações falhadas e a dificuldade permanente em corresponder às expectativas dos pais e às suas. A partir desta premissa, Jonathan Franzen constrói um romance que transforma um drama familiar num retrato da América do final do século XX. O mais impressionante em Correcções não é o enredo, mas a forma como o autor desmonta os julgamentos fáceis sobre cada personagem. À medida que o romance alterna entre pontos de vista, também a nossa perceção das personagens muda. Quem nos irritava num capítulo desperta a nossa compreensão no seguinte, como se quisesse lembrar-nos de que, dentro de uma família, ninguém conhece verdadeiramente a história do outro. Na tradição de autores como Philip Roth ou John Updike, Franzen parte da intimidade de uma família para falar de uma sociedade inteira, conjugando momentos de grande carga dramática com um humor ácido. Talvez seja isso que torne Correcções tão difícil de largar. Não porque viva de grandes reviravoltas, mas porque queremos continuar ao lado daquela família e descobrir se ainda há forma de reparar o que parece irremediavelmente partido.
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A Visita do Brutamontes, de Jennifer Egan
A Visita do Brutamontes parece um livro de contos. Cada capítulo apresenta uma personagem diferente, muda de época e altera o registo narrativo. Mas depressa percebemos que Jennifer Egan está a construir um romance em que todas essas histórias acabam por se encontrar. Como seria de esperar, não há um protagonista único. Ao longo de várias décadas, as vidas de Bennie Salazar, Sasha e muitas outras personagens cruzam-se, afastam-se e reaparecem em momentos distintos. A ordem dos acontecimentos raramente é a esperada. É normal conhecermos primeiro o destino de alguém e só depois o percurso que o conduziu até ele. Essa estrutura faz com que estejamos constantemente a reorganizar a narrativa na nossa cabeça. Jennifer Egan não se limita, porém, a brincar com a cronologia. Também experimenta diferentes formas de contar a história. A maior surpresa chega num capítulo construído inteiramente através de diapositivos PowerPoint. A ideia não parece, à partida, capaz de resultar, mas funciona tão bem que esse capítulo acaba por se tornar um dos momentos mais memoráveis do livro. A Visita do Brutamontes é a prova de que ainda há muito espaço para reinventar a forma de contar uma história.
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Butcher's Crossing, de John Williams
Quando William Andrews abandona Harvard e viaja para a pequena povoação de Butcher's Crossing, acredita que a verdadeira aprendizagem está longe das salas de aula. Pouco depois conhece Miller, um caçador experiente e de poucas palavras que afirma conhecer o paradeiro de um enorme rebanho de búfalos praticamente intocado. Convencido de que encontrou a aventura que procurava, Andrews junta-se a uma expedição que depressa deixa de ser uma simples caçada. À medida que os dias passam, a ambição começa a sobrepor-se ao bom senso. O objetivo inicial transforma-se numa obsessão e a natureza revela-se indiferente aos planos daqueles homens. Em Butcher’s Crossing, John Williams desmonta, assim, um dos grandes mitos do western americano: os heróis dão lugar a homens confrontados com os próprios limites e com um mundo que nunca esteve verdadeiramente sob o seu controlo. Muito mais do que o relato de uma aventura, este é um livro sobre obsessão e sobre o preço que pagamos quando acreditamos que podemos dominar tudo o que nos rodeia.
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