Aqui no mar

Por Álvaro Curia
6 de março de 2025
Tantas vezes precisamos de escutar para seguir em frente. E será descabido pensar que podemos olhar para o mar e aprender algo sobre as nossas próprias vidas? Estes livros ensinam-nos que não.
Faina
Faina regista o regresso à ficção de uma das mais proeminentes escritoras desta novíssima ficção portuguesa. Centrando-se na pesca artesanal, através de um método tradicional e quase esquecido, o livro documenta, com precisão, o processo de preparação e a prática de pesca em comunidades costeiras portuguesas localizadas na zona de Espinho. A escritora enfatiza o ritual e a técnica empregada pelos pescadores, entrelaçando-os com pequenas grandes histórias da lida do mar, num retrato quase documental do ofício. A narrativa utiliza a pesca não apenas como cenário, mas como metáfora do esforço contínuo e da passagem inexorável do tempo, evidenciando também os impactos das mudanças socioeconómicas, num leque de personagens e eventos que nem sempre estão do lado do real. Um livro que se lerá com grande vitalidade hoje, mas também daqui a muitos anos.
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Moby Dick
Publicado em 1851, Moby Dick acompanha a jornada de Ishmael e do capitão Ahab na obsessiva perseguição à baleia branca que atacou este último numa trágica incursão pelos mares. A sede de vingança arrasta o capitão para uma viagem onde a obsessão marca o passo com que o grande barco segue pelos mares. A obra é estruturada em capítulos que oscilam entre a narrativa de aventura e longas digressões técnicas. Melville dedica secções inteiras à cetologia, descrevendo com rigor as características anatómicas das baleias e os métodos de caça baleeira praticados na época, o que confere ao romance um caráter quase enciclopédico. A alternância entre a aventura marítima e as explicações detalhadas sobre a indústria baleeira cria um ambiente rico em informações históricas e científicas, onde não está alheia a emoção, transformando a busca de Ahab numa reflexão sobre a ambição humana, a própria vingança e os limites da racionalidade.
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A Eloquência da Sardinha
Em A Eloquência da Sardinha, Bill François fala-nos de um mar que não conhecemos. Há a ideia de que o ser humano conquistou todos os espaços do solo, mas os oceanos, e os seus habitantes, não obstante o facto de ter sido de onde todos os seres surgiram, permanecem um mistério. Muito mais do que histórias de peixes, este livro ressignifica a forma como pensamos quem vive dentro da água. Não apenas as sardinhas são protagonistas, mas também os salmões ou as baleias, e a forma como se conseguem organizar, utilizando para isso sentidos que nos são desconhecidos. Num tom bastante acessível, Bill François escreve um livro de não ficção que se lê como uma história, que nos mostra como somos, de facto, apenas uma espécie no meio de tantas outras. E seremos a que melhor explora as suas potencialidades? Talvez não.
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A flor e o peixe
A Flor e o Peixe é uma obra de Afonso Cruz que dialoga de forma direta com a estética de contos de José Saramago. Inspirado na narrativa fragmentada e na prosa que mescla o real e o fantástico, o autor utiliza a imagem contrastante da flor e do peixe para construir metáforas muito vívidas, que colocam em contraste elementos como a euforia e a melancolia, a escuridão e a luz, a avareza e a generosidade. Num livro escrito com a poesia a que Afonso Cruz nos habitua, elementos naturais são convertidos em símbolos de sensações e reflexões sobre, no fundo, a condição humana. Em entrevistas e na divulgação pelo Penguin Livros, Afonso Cruz afirma que a estrutura do livro foi concebida para provocar uma leitura que oscila entre a objetividade e a poesia, remetendo à sensibilidade característica de Saramago na exploração das pequenas verdades da vida. Estas, quando se tornam literatura, falam-nos ao ouvido e ensinam-nos quem somos.
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