Ao Espelho e A Um Gato
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13 de outubro de 2022
Aclamado escritor de ficção, crítica e ensaio, Jorge Luis Borges foi também, ao longo de toda a vida, um exímio e profundo poeta. Os poemas do autor evocam os livros, a memória dos labirintos, os espelhos, o amor, a cegueira, o mar, as cidades e a eternidade dos grandes textos, que cultivava como elementos de salvação.
Poesia Completa é a sua antologia poética integral, acabada de lançar. De Fervor de Buenos Aires (1923), sua primeira coleção de poemas, até Os Conjurados (1985), a poesia de Borges é, como as suas narrativas, uma construção fantástica que cruza todos os saberes e os grandes temas universais, com grande originalidade e lucidez.
Deixamos-lhe dois poemas do novo livro, extraídos de O Ouro dos Tigres (1972).
AO ESPELHO
Porque insistes, espelho permanente?
Porque duplicas, misterioso irmão,
O menor movimento desta mão?
Porquê o teu reflexo de repente?
És o outro eu de que falou o grego
E espreitas desde sempre. Na lisura
Da água incerta ou do cristal que dura
Procuras-me e é inútil eu estar cego.
O não te ver, mas o saber que existes
Acrescenta-te horror, poder com que ousas
Multiplicar o número das coisas
Que somos e as nossas sinas tristes.
Quando eu morrer, vais copiar um outro
E depois outro, outro, outro, outro…
A UM GATO
Os espelhos não são mais silenciosos
Nem mais furtiva a alba aventureira;
Tu és, sob o luar, essa pantera
Que só vemos de longe, receosos.
Por obra indecifrável de um decreto
De Deus, te procuramos futilmente;
Mais remoto que o Ganges e o poente,
É teu o isolamento mais secreto.
Teu dorso condescende com a morosa
Carícia desta mão. Admitiste,
Desde essa eternidade que é o triste
Esquecimento, o amor da mão medrosa.
Existes noutro tempo. E és o dono
De um domínio fechado como um sono.
Poesia Completa é a sua antologia poética integral, acabada de lançar. De Fervor de Buenos Aires (1923), sua primeira coleção de poemas, até Os Conjurados (1985), a poesia de Borges é, como as suas narrativas, uma construção fantástica que cruza todos os saberes e os grandes temas universais, com grande originalidade e lucidez.
Deixamos-lhe dois poemas do novo livro, extraídos de O Ouro dos Tigres (1972).
AO ESPELHO
Porque insistes, espelho permanente?
Porque duplicas, misterioso irmão,
O menor movimento desta mão?
Porquê o teu reflexo de repente?
És o outro eu de que falou o grego
E espreitas desde sempre. Na lisura
Da água incerta ou do cristal que dura
Procuras-me e é inútil eu estar cego.
O não te ver, mas o saber que existes
Acrescenta-te horror, poder com que ousas
Multiplicar o número das coisas
Que somos e as nossas sinas tristes.
Quando eu morrer, vais copiar um outro
E depois outro, outro, outro, outro…
A UM GATO
Os espelhos não são mais silenciosos
Nem mais furtiva a alba aventureira;
Tu és, sob o luar, essa pantera
Que só vemos de longe, receosos.
Por obra indecifrável de um decreto
De Deus, te procuramos futilmente;
Mais remoto que o Ganges e o poente,
É teu o isolamento mais secreto.
Teu dorso condescende com a morosa
Carícia desta mão. Admitiste,
Desde essa eternidade que é o triste
Esquecimento, o amor da mão medrosa.
Existes noutro tempo. E és o dono
De um domínio fechado como um sono.