Amigos para sempre

Por Álvaro Curia/ Ludgero Cardoso
@literacidades
3 de agosto de 2022
Se muitas vezes os livros nos convencem pelas peripécias amorosas dos seus protagonistas, não é nada raro que nos enamoremos por grandes histórias de amizade. O Dia Internacional da Amizade comemora-se a 30 de julho e por isso trazemos-lhe livros que retratam as relações entre amigos. Com uma particularidade. São amizades cúmplices, íntimas e profundas entre homens.
 
Baiôa sem data para morrer
Quantas vezes não teve já vontade de abandonar a cidade e ir viver para o interior? Esquecer o desenfreio de uma rotina que nos impõe um ritmo que não é nosso e ir terra dentro procurar a tranquilidade dos dias e a vida sem o turbilhão de emoções mecânicas dos centros urbanos. Quase sempre a ideia fica-se por uma intenção e desaparece no momento em que a mente se distrai com um horário a cumprir ou outra obrigação qualquer.
A obra de estreia de Rui Couceiro no mundo da ficção fala-nos precisamente de um jovem professor que recebe a notícia de que a casa dos seus avós, numa aldeia alentejana, foi recuperada e está à sua espera. O nosso herói deixa Lisboa e parte rumo a Gorda e Feia, terra onde vai encontrar as mais deliciosas personagens. A partir daí, o enredo urdido pelo autor vai levar-nos pelos meandros da vida na aldeia, com uma única certeza: a morte vai acabar por levá-los a todos. Mas será mesmo assim? Entre a personagem principal e Baiôa, talvez uma das mais carismáticas personagens da literatura contemporânea portuguesa, vai acontecer uma amizade improvável. Um é jovem e urbano, o outro é idoso e viveu toda a sua vida naquela aldeia, trazendo para si a missão de recuperar as casas dos habitantes que há muito partiram para outros lugares. Entre os dois, a confiança vai crescendo à medida que descobrem que têm tanto mais em comum do que a princípio acreditaram. Duas gerações a braços com os seus receios, onde curiosamente o mais novo é mais fatalista e o mais velho guarda uma esperança por dias melhores.
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O Coração dos Homens
Como seria uma cidade sem mulheres? Hugo Gonçalves responde-o neste livro, em que imagina uma Cidade-Estado onde as mulheres estão proibidas de entrar e qualquer memória delas é proibida e punida severamente. Uma cidade de homens, onde todo o desvio à norma é punido e a violência é exaltada. Neste lugar não há espaço para a demonstração de outros sentimentos que não a fúria e o desprezo e nem sequer a identidade de cada homem é admitida para si mesmo. Em tal cenário de horror, há um grupo de amigos, Ele, Mau e Grande, homens à vontade para fazerem o que lhes apetece, sem limites nem a ideia de punição, salvo para qualquer comportamento que denuncie emoção.
Neste autêntico pesadelo originado por um Estado todo-poderoso, os três amigos cultivam a força física, destroem livremente tudo por onde passam e não demonstram o mais breve esgar de culpa. Chega o dia em que algo sucede, e os três têm de passar a lidar com as suas emoções, o que não significa nada mais do que crescer. Mas será que eles estão preparados para abandonar os alicerces da sua personalidade? Uma das questões mais interessantes desta distopia é precisamente ver como os laços entre os três se comportam quando deixa de haver o contexto em que estavam habituados a dar asas aos seus comportamentos. Conseguirão os três amigos ter uma vida dentro dos parâmetros do expectável? Este livro coloca-nos a nós próprios em confronto com o que somos, com o que seríamos em determinadas situações e como resolveríamos as nossas relações com os outros.
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As doenças do Brasil
Quando pensamos em amizade, é incontornável referir um dos mais belos livros que lemos nos últimos tempos. Trata-se de As doenças do Brasil, de Valter Hugo Mãe, onde encontramos dois rapazes, Honra e Meio da Noite, personagens inesquecíveis e que ficam tanto tempo a morar connosco, na nossa galeria das figuras mais ternas que a literatura nos trouxe.
Estamos num território inventado mas nem por isso pouco real. A terra dos abaeté, povo indígena que vê a sua existência ameaçada perante a chegada da «fera branca», ameaçadora, destrutiva, que não se importa com a beleza. A estupefação perante a chegada dos opressores é real e é transmitida neste livro de uma forma tão sensível que de repente somos nós próprios Honra ou Meio da Noite, e estamos com eles naquela incredulidade e na sua luta para que não os magoem na sua essência mais pura. Os dois, como se verá, cumprirão entre si um pacto de proteção que não é explícito, porque não precisa de o ser, e partem em defesa dos abaetés. Fruto da violação de um branco a uma abaeté, Honra cresce já com a ferida dentro de si e o seu desejo de justiça é algo muito bonito de se ler.
Valter Hugo Mãe brinda-nos com uma linguagem muito particular, cheia de sentidos, que nos coloca sempre no lugar. Estamos também com os dois amigos, queremos evitar aquilo que sabemos não poder parar, e que foi o genocídio dos povos indígenas na América do Sul. Mas, tal como Honra e Meio da Noite, não é a desproporção das forças que nos para.
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O beijo da mulher aranha
Numa cela de prisão, Valentín, condenado por atividades revolucionárias contra a ditadura argentina, e Molina, descrito como um homossexual condenado por ter corrompido um menor, criam entre si uma das mais completas histórias de amizade. Para que o tempo da prisão não pese tanto, Molina conta a Valentín a trama de vários filmes que viu. Este pede-lhe sempre que o mantenha entretido com essas histórias, para que não pense demais. O livro fala da inutilidade de explicar as emoções, exagera-as ao ponto de tudo ser brilhante, feérico, apetitoso, mesmo estando-se dentro de uma cela de uma prisão. E há muito carinho na forma como Molina trata Valentín, esbatendo as diferenças ao ponto de ambos partilharem momentos de uma delicadeza ímpar.
OBeijo da Mulher Aranha, lançado em 1976 e imediatamente proibido na Argentina, é também (e sobretudo) um livro político, que fala da horrenda vivência numa ditadura. E de uma altura em que, mesmo para mentes brilhantes como a de Manuel Puig, ainda não era bem clara a diferença entre identidade de género e orientação sexual. Não é à toa que as notas do livro, no final, são um ensaio sobre o que tem a psicanálise a dizer sobre a homossexualidade. Hoje parecem-nos um pouco datadas, essas notas. Mas há muito de visionário e vanguardista, no livro de Puig, no que se refere ao género e à sexualidade: «queria dizer-te que, se gostas de ser mulher, não te sintas menos por isso». É uma frase sublime, uma ideia que, ainda hoje, é preciso gritar bem alto.
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