«Adormecer do lado da primavera»
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22 de julho de 2026
Jorge Sousa Braga (Cervães, 1957) vem publicando poesia desde 1981, ano em que conclui a sua formação em medicina. A sua voz é direta, despida de artifícios, e cheia de invenção: versos que desarmam pelo humor e pela economia de meios, que já dividiram leitores entre o fascínio e o desconforto, entre quem se rendeu de imediato e quem torceu o nariz. Certo é que o poeta seguiu sempre o seu próprio rumo, indiferente a modas e vereditos.
A sua obra, dispersa ao longo de décadas, surge agora reunida sob o título O Poeta Nu, uma edição que junta à anterior antologia dois títulos mais recentes, A Matéria Escura (2020) e A Flor Cadáver (2024). Um retrato mais completo e atual de um poeta que, mais de quatro décadas depois de começar, continua surpreendentemente vivo, afiado e imprevisível.
ADORMECER DO LADO DA PRIMAVERA
Engolir um Mirage e vomitar em seguida
dois milhões de pássaros pela boca
Fornicar sucessivamente com um elefante-fêmea
uma galinha-da-índia um colibri e uma borboleta
Destruir a pontapé todas as palavras do dicionário
até chegar à palavra chumbo
Estender a língua vermelha na pista do aeroporto
para servir de tapete a uma estrela de Hollywood
Cortar os braços a todos os prisioneiros e gritar «mãos no ar»
antes de os passar pelas armas
Derrotar todos os exércitos do nascente
e sucumbir ao ser atacado pelas costas por uma folha do outono
Comer à sobremesa apenas maçãs marca Cézanne
Assistir ao próprio enterro ao volante de um BMW cor de cinza
e chorar lágrimas verdadeiras
Descobrir uma caravela naufragada há quinhentos anos no fundo dos
teus olhos
e conseguir trazer para a superfície duas estátuas de Buda além de uma
tonelada de pimenta e outra de cravo
Passar cinco anos na solidão de uma cidade de dez milhões de
habitantes
e experimentar depois o bulício das Penhas Doiradas
Entrar num supermercado e plantar um limoeiro na secção das
vitaminas
Recuar alguns séculos no tempo
para apanhar nas mãos a cabeça de Maria Antonieta
Lavar as mãos em sangue antes de assinar o tratado de paz
A sua obra, dispersa ao longo de décadas, surge agora reunida sob o título O Poeta Nu, uma edição que junta à anterior antologia dois títulos mais recentes, A Matéria Escura (2020) e A Flor Cadáver (2024). Um retrato mais completo e atual de um poeta que, mais de quatro décadas depois de começar, continua surpreendentemente vivo, afiado e imprevisível.
ADORMECER DO LADO DA PRIMAVERA
Engolir um Mirage e vomitar em seguida
dois milhões de pássaros pela boca
Fornicar sucessivamente com um elefante-fêmea
uma galinha-da-índia um colibri e uma borboleta
Destruir a pontapé todas as palavras do dicionário
até chegar à palavra chumbo
Estender a língua vermelha na pista do aeroporto
para servir de tapete a uma estrela de Hollywood
Cortar os braços a todos os prisioneiros e gritar «mãos no ar»
antes de os passar pelas armas
Derrotar todos os exércitos do nascente
e sucumbir ao ser atacado pelas costas por uma folha do outono
Comer à sobremesa apenas maçãs marca Cézanne
Assistir ao próprio enterro ao volante de um BMW cor de cinza
e chorar lágrimas verdadeiras
Descobrir uma caravela naufragada há quinhentos anos no fundo dos
teus olhos
e conseguir trazer para a superfície duas estátuas de Buda além de uma
tonelada de pimenta e outra de cravo
Passar cinco anos na solidão de uma cidade de dez milhões de
habitantes
e experimentar depois o bulício das Penhas Doiradas
Entrar num supermercado e plantar um limoeiro na secção das
vitaminas
Recuar alguns séculos no tempo
para apanhar nas mãos a cabeça de Maria Antonieta
Lavar as mãos em sangue antes de assinar o tratado de paz