A sensualidade rubra das papoilas, por Cesário Verde

Vera Dantas
7 de maio de 2026
Dom Quixote 60 Anos de Poesia é uma antologia que celebra os 60 anos da editora Dom Quixote, reunindo um poema de cada poeta publicado pela editora. Criada no âmbito das comemorações do aniversário, evidencia o compromisso contínuo desta editora na divulgação da poesia, desde a sua fundação por Snu Abecassis, em 1965. Nessa altura, os Cadernos de Poesia marcaram a edição literária portuguesa, reunindo autores como Carlos de Oliveira, Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, Ruy Belo, Natália Correia ou Herberto Helder. Com o passar das décadas, a Dom Quixote continuou a ampliar o catálogo, incluindo clássicos e poetas que se tornaram presença constante, como Manuel Alegre, Fernando Pinto do Amaral e Nuno Júdice.
Cesário Verde, um dos precursores do modernismo em Portugal, está, naturalmente, entre os poetas desta antologia. E é dele o poema, quente e solarengo, que destacamos deste livro que merece ser acarinhado.


De tarde

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde

Subscreva!