A Química das Emoções – as moléculas na base do que sentimos

Vera Dantas
16 de abril de 2026
«Desde a tristeza profunda até ao êxtase absoluto, desde a procrastinação crónica até à criatividade mais intensa, cada estado mental tem uma assinatura química.» Mas o que quer isto dizer na prática e como podemos usar esse entendimento a nosso favor? A resposta, surpreendente e cativante, está no novo livro de Nuno Maulide, A Química das Emoções. Depois de nos explicar Como se Transforma Ar em Pão (2021) e Como Desvendar a Origem da Vida (2022), este extraordinário químico e divulgador científico português, professor catedrático no Instituto de Química Orgânica da Universidade de Viena, volta-se agora para uma dimensão mais íntima da nossa existência: as emoções e os sentimentos.
«Há um padrão invisível em tudo o que sentimos. E, quando vir esse padrão, pode aprender a alterá-lo», garante-nos Maulide. «O que sentimos, pensamos ou desejamos – tudo pode ser visto como uma dança intrincada entre moléculas e recetores, entre descargas elétricas e sussurros químicos». O que é mais fascinante, acrescenta, é que «se conseguirmos entender a música que o nosso cérebro está a tocar, talvez possamos aprender a reescrever a partitura».
Ao longo desta obra que nos fala a todos, Nuno Maulide apresenta-nos os principais atores químicos para cada emoção.
Por exemplo, no capítulo sobre a química da tristeza e da depressão, a serotonina e a dopamina estão entre os principais atores químicos, assim como o cortisol e as endorfinas. A depressão, por sua vez, é um campo de batalha bioquímico em que moléculas fundamentais lutam para manter a harmonia mental. A boa notícia é que o estado bioquímico que corresponde à depressão pode ser tratado, regulado e, em muitos casos, superado.

Capítulo a capítulo, Nuno Maulide explica a química do engano e da mentira, da procrastinação, do tédio e da criatividade, do exercício físico e do jejum e até a química do amor, entre outras emoções e sentimentos humanos. Aliando uma linguagem de fácil compreensão e uma capacidade inata de contar histórias, Nuno Maulide relaciona as explicações químicas com histórias da vida real, quer de pessoas conhecidas, quer da sua experiência pessoal. Além de investigador científico, Nuno Maulide é pianista amador, não dos que tocam apenas em casa, mas um participante em competições internacionais de piano, tal é a sua dedicação à música. Conta-nos que, há uns anos, antes de entrar para o palco com uma audiência de 1020 pessoas no Paris Amateur Piano Competition, e no meio do típico “nervoso miudinho”, realizou exercícios de respiração, meditou e visualizou a sua performance de olhos fechados. O seu objetivo era alcançar o estado de flow. Quando se sentou ao piano, no palco, o mundo à volta desapareceu, a música «tocava-se a si mesma». Isto aconteceu, explica, porque durante o flow, o cérebro entrou num estado de hipofrontalidade transitória, em que a voz crítica interna – aquela que analisa, corrige, antecipa julgamentos – é desativada. É o que permite que cirurgiões realizem operações complexas durante horas sem noção do tempo, ou que atletas entrem num estado em que cada movimento é executado com precisão milimétrica sem esforço aparente. Dentro do cérebro, por trás do flow, há um cocktail neuroquímico altamente específico, cuidadosamente equilibrado, que transforma este estado numa experiência quase psicadélica.

Se cada capítulo deste livro fosse um frasco num laboratório, com um conteúdo emocional diferente, e se os misturássemos, eles criariam «um cocktail único, a fórmula invisível que nos faz humanos». Mas se a química é «uma espécie de alfabeto da vida, não é, porém, a história que esse alfabeto escreve. Essa história é a nossa», conclui Maulide, em mais um livro fascinante.

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