A poesia de Artur do Cruzeiro Seixas

Poemas do III Volume da «Obra Poética»
17 de janeiro de 2020

Não estranhe se os poemas Artur de Cruzeiro Seixas o fizerem de repente pensar num quadro de Dalí ou De Chirico. Autor de um vasto trabalho no campo do desenho, pintura, poesia e escultura, o artista nascido em 1920 na Amadora é um dos grandes nomes do Surrealismo português e europeu.
Contou com inúmeras exposições em Portugal e no estrangeiro, e com diversos prémios e distinções, incluindo a Medalha de Honra e a Medalha de Mérito Cultural.
Morreu a 8 de novembro de 2020, prestes a completar 100 anos.

A coleção “Elogio de Sombra” tem vindo a publicar a sua Obra Poética, de que acaba de sair o terceiro volume.
poemas
O beijo romântico de hoje no parque
poluiu a estratosfera
essa fábrica de cristais baratos
reflectindo a visão interior de uma época
que só tem casca.
O beijo romântico aconteceu afinal
como acontecem as guerras;
e como elas sobrevive
sem trabalhar.
Melodias insuspeitas nas teclas
desta máquina de escrever
em que de novo lanço a semente dos trigais.
O monograma esse é sempre pontual.
É ver como o abismo se aproxima a passos rápidos
através das paredes amplamente urinadas:
mas temos agora um espelho especial para vêr o nada
um presente amigo da morte
- E quem há aí que possa dizer
não ter sofrido já o grande impacto azul?
A noite sorri melhor
que um batalhão de Giocondas
e depois não esfriam eles afinal até à provocação
esse pobre corpo mecânico
esse esplendoroso mapa poluidor?






No canto mais escuro da casa
nasceu um fruto.
Pelo arfar do seu peito vejo que sonha.
Tremo de emoção
como se sentisse uma mão acesa
sobre o meu ombro.

Deste momento
tenho uma mosca
como única testemunha.






De ti meu amor sei tudo.
Sei que és uma labareda
vegetal
e que em ti
estão vivas
todas as mais infinitas
distâncias.

Artur do Cruzeiro Seixas, Obra Poética - III

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