A magia da «Nova Estação» por António Ramos Rosa

O primeiro volume da Obra Poética de António Ramos Rosa reúne os poemas publicados em livro ou folheto entre 1958 e 1987.
NOVA ESTAÇÃO

Toda a gente passou a cumprimentar-nos.
O sol é novo através da chuva.
Abrem-se as janelas com cuidado.
Uma frescura sobe ao compasso da terra.
Fomos crianças. As árvores tilintam.

É tempo de trabalhar
inquietamente.
Tempo de caminhar com presteza
pelas calçadas húmidas.
Tempo de ser vergastado pelo vento.
Tempo de lutar contra o vento.
Tempo sério.

A cidade é grande, cinzenta, verde.
Paremos.
Os troncos negros brilham.

Há um fervor no ar.
Mil centelhas pululam.
As fachadas são largas, lisas.
Respiremos.
Vamos continuar o dia.
O sol tão disseminado,
vibrante além nas pedras.
E sombra deste lado e quase azul.
Um animal lentamente passa
entre caminhares apressados.
No tumulto dos metais entre os brilhos,
nós, sossegados, vemos.

António Ramos Rosa, Obra Poética I

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