À conversa com Rosario Villajos

Vera Dantas
8 de abril de 2026
Rosario Villajos (Córdoba, 1978) é uma escritora e artista espanhola cuja obra tem vindo a destacar-se pela forma como explora o corpo, a identidade e as tensões sociais que moldam a experiência feminina contemporânea. Formada em Belas Artes, trabalhou nas indústrias musical, cinematográfica, artística e cultural.

Em 2023, venceu o Prémio Biblioteca Breve com o romance A Educação Física, distinguido pelo júri como uma narrativa poderosa sobre a relação entre uma adolescente e o seu corpo, revelando as pressões sociais, a violência subtil e os padrões herdados que moldam gerações .

Nesta entrevista, Rosario Villajos aprofunda algumas das ideias centrais do livro: a forma como a sociedade educa raparigas e rapazes, a persistência de desigualdades e o papel da memória corporal na construção da identidade. Fala também do processo criativo, das dificuldades de escrever sobre temas íntimos e da importância de dar visibilidade às experiências que tantas vezes permanecem silenciadas.
 Rosario Villajos
Rosario Villajos, Foto © José Martín S.
O que te levou a dedicares-te à escrita?
Foi um pouco por acaso, não era algo que eu tivesse sonhado. Quando era pequena via isso como algo que outras pessoas faziam, não eu. Tinha acabado de voltar de viver 7 anos em Inglaterra e sentia que o meu espanhol tinha piorado. Sempre gostei de poesia, tinha escrito quando era jovem, mas achava que era para os outros, não para mim. Ao voltar a Espanha inscrevi me num workshop de escrita e pensei: “Que divertido é escrever e que bem me faz!”.

Por que optaste por este tema específico de A Educação Física?
Porque estava a ir à fisioterapia nessa altura. Tinha muitas dores físicas, musculares, contraturas constantes. Lembro me de dizer à fisioterapeuta: “Gostaria de não ter corpo”. A partir daí, começou tudo: porque não quero ter corpo? O corpo sempre foi para mim algo a esconder, a culpar, a melhorar. Comecei a recordar pequenas humilhações relacionadas com o corpo, desde muito pequena — toques sem permissão, opiniões sobre o corpo, invasão de espaço, até por parte de adultos responsáveis, como professores, especialmente nas aulas de educação física.

Pretendeste, ao escrever o livro, traçar um retrato da tua geração?
Pelo contrário. Queria mostrar que, embora o livro se passe nos anos 90, qualquer pessoa que o leia hoje não o achará distante. Havia quem dissesse que já havia igualdade, e eu queria mostrar que não é verdade, que partimos de uma grande desigualdade desde pequenos.
 
«Embora o livro se passe nos anos 90, qualquer pessoa que o leia hoje não o achará distante.»
As coisas não mudaram para melhor desde que eras jovem?
Algumas sim, mas surgiram outras piores, como a violência digital. Não a vivi. E os rapazes da minha idade não eram tão machistas como os nossos pais. Agora os rapazes jovens são muito machistas. Mas hoje podemos falar e escrever sobre estes temas, e isso é uma mudança enorme.

Optaste por uma alternância narrativa com um ritmo quase cinematográfico. Porquê?
Para mim a literatura é um jogo. Impus me a regra de escrever uma história que acontecesse numa só tarde, mas que contasse muito. Inspirei me num filme iraniano, Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, que se passa numa tarde e conta imenso. A minha protagonista é adolescente, por isso quis incluir repetição, ruminação — algo típico dessa idade.

O que foi mais desafiante na escrita deste livro?
O pudor. Ou melhor, pensar que estava a escrever uma loucura que não interessaria a ninguém. Que a dor feminina não interessaria a ninguém. Isso teria doído muito. Mas depois percebi, graças ao prémio e ao feedback, que não era assim.

Há alguma cena ou capítulo especialmente significativo para ti?
Sim. Catalina tem uma relação difícil com a mãe, mas parece que é ela quem cuida da mãe. Há cenas em que a mãe aprende algo por causa do que Catalina diz, e isso é muito bonito.

Que mensagem esperas que os leitores retirem da obra?
Que olhem para as meninas de hoje de outra forma, sabendo de onde vêm. A dor também se herda. Gostaria que pensassem em evitar a repetição dos mesmos padrões.

No final, há uma personagem masculina gentil com Catalina, devolvendo-lhe a confiança.
Sim. O melhor amigo dela, Guillermo, é extraordinário. O pai de uma colega também. O pai da Catalina não é mau. Há mães muito dominadoras. Mas fomos educadas para desconfiar sempre dos homens. Mesmo assim, no livro há personagens boas e más de ambos os géneros.

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