À conversa com Luís Saraiva, Editor de BD da ASA – LEYA
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28 de maio de 2026
Luís Saraiva é hoje uma das figuras centrais da Banda Desenhada em Portugal, responsável por um catálogo que tem ajudado a transformar o panorama nacional do género. Nesta conversa, fala com entusiasmo sobre o privilégio de trabalhar diariamente com aquilo que mais o apaixona: livros, autores e histórias que desafiam fronteiras.
Recorda o seu percurso, desde os primeiros contactos com a BD no grupo LeYa até ao momento em que assumiu a liderança editorial da ASA BD. Explica como o mercado português está a amadurecer, acompanhando tendências internacionais e atraindo novos leitores, sem abandonar clássicos como Astérix, Tintin ou Lucky Luke. Revela ainda como as “Graphic Novels” estão a conquistar todas as idades e porque a diversidade editorial é hoje essencial.
Recorda o seu percurso, desde os primeiros contactos com a BD no grupo LeYa até ao momento em que assumiu a liderança editorial da ASA BD. Explica como o mercado português está a amadurecer, acompanhando tendências internacionais e atraindo novos leitores, sem abandonar clássicos como Astérix, Tintin ou Lucky Luke. Revela ainda como as “Graphic Novels” estão a conquistar todas as idades e porque a diversidade editorial é hoje essencial.
Luís Saraiva fala-nos das suas apostas mais recentes — como Final Cut e Ginseng Roots — e do que procura num livro para dizer “sim, isto tem de ser publicado”. Partilha a sua visão sobre o equilíbrio entre argumento e ilustração e sobre os desafios técnicos únicos da edição de BD. E termina com uma escolha surpreendente quando lhe perguntamos qual a coleção que salvaria num cenário apocalíptico. Se é fã de BD, tem mesmo de ler esta entrevista! *
Olá, Luís! És o maior editor de Banda Desenhada (BD) em Portugal, quer analisando o número de títulos publicados, quer analisando as vendas no mercado nacional. Como se lida com essa responsabilidade de ser “o editor de BD” em Portugal? Motiva ou condiciona o teu trabalho?
Estou sempre motivado por ter a possibilidade de trabalhar no que mais gosto. O meu principal objetivo é conseguir sempre o melhor livro, o melhor argumento e o melhor desenho. Como é evidente, nem sempre é possível, mas gosto de estar a par de tudo o que de bom se vai fazendo na banda desenhada e de contribuir com um catálogo amplo e diversificado, que permita aos nossos leitores ter a oportunidade de ler bons livros de banda desenhada em português.
Quando descobriste a BD e/ou tomaste a decisão de: é isto que adoro e é isto que quero fazer?
Sempre fui um leitor de banda desenhada e sempre achei fascinante o processo editorial. Em 2007, entrei para o grupo LeYa e tive desde logo a oportunidade de entrar em contacto com a banda desenhada, através das coleções que eram publicadas na altura com o jornal Público (foram 38 coleções, com mais de 400 livros, ao longo de 15 anos).
Durante esse período, enquanto responsável por essas iniciativas, tive a oportunidade de aprender muito sobre edição, em particular sobre edição de banda desenhada, que tem muitas especificidades. No final de 2022, foi-me proposto o desafio de me dedicar a tempo inteiro à edição da ASA BD e não hesitei. Era a "oportunidade".
Olá, Luís! És o maior editor de Banda Desenhada (BD) em Portugal, quer analisando o número de títulos publicados, quer analisando as vendas no mercado nacional. Como se lida com essa responsabilidade de ser “o editor de BD” em Portugal? Motiva ou condiciona o teu trabalho?
Estou sempre motivado por ter a possibilidade de trabalhar no que mais gosto. O meu principal objetivo é conseguir sempre o melhor livro, o melhor argumento e o melhor desenho. Como é evidente, nem sempre é possível, mas gosto de estar a par de tudo o que de bom se vai fazendo na banda desenhada e de contribuir com um catálogo amplo e diversificado, que permita aos nossos leitores ter a oportunidade de ler bons livros de banda desenhada em português.
Quando descobriste a BD e/ou tomaste a decisão de: é isto que adoro e é isto que quero fazer?
Sempre fui um leitor de banda desenhada e sempre achei fascinante o processo editorial. Em 2007, entrei para o grupo LeYa e tive desde logo a oportunidade de entrar em contacto com a banda desenhada, através das coleções que eram publicadas na altura com o jornal Público (foram 38 coleções, com mais de 400 livros, ao longo de 15 anos).
Durante esse período, enquanto responsável por essas iniciativas, tive a oportunidade de aprender muito sobre edição, em particular sobre edição de banda desenhada, que tem muitas especificidades. No final de 2022, foi-me proposto o desafio de me dedicar a tempo inteiro à edição da ASA BD e não hesitei. Era a "oportunidade".
«A banda desenhada em Portugal está a amadurecer e a acompanhar a evolução do mercado lá fora.»
Muitos leitores portugueses ainda associam a Banda Desenhada (BD) ao Astérix, Tintin, Lucky Luke, etc. Mas a BD diversificou-se nos últimos anos e hoje temos comics, manga, novelas gráficas… Achas que o leitor de BD está a migrar dos “clássicos” para estes novos géneros ou são novos leitores que estão a chegar à BD?
Acho que a banda desenhada em Portugal está a amadurecer e a acompanhar a evolução do mercado lá fora. O nosso mercado tem sempre uma dimensão e um ritmo diferentes, mas o caminho está traçado e a evolução já é visível nos números, tanto a nível de vendas globais como de quantidade e variedade de títulos publicados anualmente.
Esta evolução permite que os editores nacionais comecem a apostar mais nestas novas tendências e a diversificar a sua oferta.
Acho que a banda desenhada em Portugal está a amadurecer e a acompanhar a evolução do mercado lá fora. O nosso mercado tem sempre uma dimensão e um ritmo diferentes, mas o caminho está traçado e a evolução já é visível nos números, tanto a nível de vendas globais como de quantidade e variedade de títulos publicados anualmente.
Esta evolução permite que os editores nacionais comecem a apostar mais nestas novas tendências e a diversificar a sua oferta.
Não diria que o consumo está a migrar, pois vemos as novidades recentes do Astérix, Blake e Mortimer, Michel Vaillant e muitos outros ditos "old school" a continuarem a ter sucesso de vendas ano após ano, mas sim que há um aumento do mercado como um todo, no qual se incluem essas novas tendências. Atualmente, a banda desenhada tem vindo a alargar o seu espectro de influência e a conseguir captar novos públicos, em especial os mais jovens.
«O meu principal objetivo é conseguir sempre o melhor livro, o melhor argumento e o melhor desenho»
Qual foi a coleção/autor que mais prazer te deu trazer para Portugal e porquê?
Trata-se de uma pergunta difícil de responder, pois existem muitas opções. No entanto, dado serem duas apostas muito recentes vindas do outro lado do Atlântico (EUA) e com dinâmicas totalmente diferentes, apontaria para o Final Cut e o Ginseng Roots.
Estou a falar do Charles Burns com o livro Final Cut, que nos apresenta uma história interessante onde a banda desenhada se comporta como uma componente do processo da indústria cinematográfica.
Depois, o Craig Thompson, com o livro Ginseng Roots, mais uma obra autobiográfica do autor de Blankets, muito científica e atual, na qual o tema da globalização e o seu impacto no mundo atual é muito bem retratado.
Trata-se de uma pergunta difícil de responder, pois existem muitas opções. No entanto, dado serem duas apostas muito recentes vindas do outro lado do Atlântico (EUA) e com dinâmicas totalmente diferentes, apontaria para o Final Cut e o Ginseng Roots.
Estou a falar do Charles Burns com o livro Final Cut, que nos apresenta uma história interessante onde a banda desenhada se comporta como uma componente do processo da indústria cinematográfica.
Depois, o Craig Thompson, com o livro Ginseng Roots, mais uma obra autobiográfica do autor de Blankets, muito científica e atual, na qual o tema da globalização e o seu impacto no mundo atual é muito bem retratado.
Quando recebes uma proposta de publicação de BD, o que te faz dizer logo “sim, isto tem de ser publicado”?
Tenho por hábito olhar sempre de duas formas distintas.
Em primeiro lugar, analiso as tendências do mercado, os argumentos e os autores, e, por último, o eventual momento celebrativo que possa potenciar e estimular os leitores.
A segunda forma é sempre uma visão pessoal: olhar para o livro como algo que eu, enquanto leitor, gostaria de ver publicado.
O que consideras mais importante para o sucesso de um livro de BD: a ilustração ou a história?
Sendo a banda desenhada uma forma de literatura que conjuga o desenho e o argumento, não é fácil distinguir qual é mais importante.
No entanto, um bom livro tem de começar sempre por uma boa história. O desenho é a forma de a representar.
Obrigado, Luís! Para terminar, diz-nos uma coisa: se só pudesses salvar uma coleção ou autor de BD da prateleira da ASA em caso de desastre apocalíptico, qual seria e porquê?
Adoro a pergunta! Faz-me pensar e a minha cabeça anda às voltas com tantas opções possíveis. No entanto, se for 100% racional e honesto, a coleção que salvaria de um desastre dessa dimensão seria a coleção completa do Tintin.
Apesar de estar a dinamizar as novas vertentes da banda desenhada e de promover uma linguagem visual e narrativa mais ajustada aos nossos dias, a coleção de Tintin, escrita e ilustrada por Hergé, é um marco fundamental no segmento da banda desenhada. Para mim, foi onde tudo começou.
Hergé procurou, através das suas viagens e incansáveis pesquisas, que os seus álbuns tivessem uma precisão histórica e cultural irrepreensíveis, foi o ponto de partida para aquilo que se apelida de 9ª Arte.
Além disso, as técnicas de desenho e pintura foram evoluindo gradualmente no seu percurso, bem como o recurso à fotografia como ferramenta de pesquisa e à escultura como base técnica para a modelação do seu trabalho, contribuíram positivamente para um resultado de excelência. Hergé foi um entusiasta das artes plásticas integradas e a BD foi no fundo o resultado de toda essa integração.
Sei que existem muitos livros polémicos nesta coleção que, nos dias de hoje, poderiam ser alvo de críticas e ajustamentos. Porém, não deixam de ser um registo temporal, evolutivo e de enorme qualidade e rigor técnico, tanto a nível de desenho como de argumento.
Não posso terminar esta entrevista sem falar da banda desenhada feita por autores nacionais, até porque existem cada vez mais, muitos e bons, ilustradores portugueses a trabalhar afincadamente nesta área.
A ASA foi, durante muito tempo, a editora de referência na publicação de obras de BD de autores nacionais, tendo sido responsável pela divulgação de muitos nomes atuais de nomeada da banda desenhada portuguesa. Nos últimos tempos, isso não tem acontecido com a regularidade desejada. Porém, a nova estratégia da ASA BD também aborda essa linha editorial.
A nossa abordagem passa por atrair bons argumentistas do mundo literário nacional para o meio da banda desenhada. Contamos começar em breve a divulgar novidades neste sentido.
Obrigado!!!
* Esta entrevista foi originalmente publicada na revista Wookacontece de abril de 2026.
Tenho por hábito olhar sempre de duas formas distintas.
Em primeiro lugar, analiso as tendências do mercado, os argumentos e os autores, e, por último, o eventual momento celebrativo que possa potenciar e estimular os leitores.
A segunda forma é sempre uma visão pessoal: olhar para o livro como algo que eu, enquanto leitor, gostaria de ver publicado.
O que consideras mais importante para o sucesso de um livro de BD: a ilustração ou a história?
Sendo a banda desenhada uma forma de literatura que conjuga o desenho e o argumento, não é fácil distinguir qual é mais importante.
No entanto, um bom livro tem de começar sempre por uma boa história. O desenho é a forma de a representar.
Obrigado, Luís! Para terminar, diz-nos uma coisa: se só pudesses salvar uma coleção ou autor de BD da prateleira da ASA em caso de desastre apocalíptico, qual seria e porquê?
Adoro a pergunta! Faz-me pensar e a minha cabeça anda às voltas com tantas opções possíveis. No entanto, se for 100% racional e honesto, a coleção que salvaria de um desastre dessa dimensão seria a coleção completa do Tintin.
Apesar de estar a dinamizar as novas vertentes da banda desenhada e de promover uma linguagem visual e narrativa mais ajustada aos nossos dias, a coleção de Tintin, escrita e ilustrada por Hergé, é um marco fundamental no segmento da banda desenhada. Para mim, foi onde tudo começou.
Hergé procurou, através das suas viagens e incansáveis pesquisas, que os seus álbuns tivessem uma precisão histórica e cultural irrepreensíveis, foi o ponto de partida para aquilo que se apelida de 9ª Arte.
Além disso, as técnicas de desenho e pintura foram evoluindo gradualmente no seu percurso, bem como o recurso à fotografia como ferramenta de pesquisa e à escultura como base técnica para a modelação do seu trabalho, contribuíram positivamente para um resultado de excelência. Hergé foi um entusiasta das artes plásticas integradas e a BD foi no fundo o resultado de toda essa integração.
Sei que existem muitos livros polémicos nesta coleção que, nos dias de hoje, poderiam ser alvo de críticas e ajustamentos. Porém, não deixam de ser um registo temporal, evolutivo e de enorme qualidade e rigor técnico, tanto a nível de desenho como de argumento.
Não posso terminar esta entrevista sem falar da banda desenhada feita por autores nacionais, até porque existem cada vez mais, muitos e bons, ilustradores portugueses a trabalhar afincadamente nesta área.
A ASA foi, durante muito tempo, a editora de referência na publicação de obras de BD de autores nacionais, tendo sido responsável pela divulgação de muitos nomes atuais de nomeada da banda desenhada portuguesa. Nos últimos tempos, isso não tem acontecido com a regularidade desejada. Porém, a nova estratégia da ASA BD também aborda essa linha editorial.
A nossa abordagem passa por atrair bons argumentistas do mundo literário nacional para o meio da banda desenhada. Contamos começar em breve a divulgar novidades neste sentido.
Obrigado!!!
* Esta entrevista foi originalmente publicada na revista Wookacontece de abril de 2026.