O motor do caos e da destruição

António Bizarro nasceu em 1978 na cidade de São Paulo e cresceu no Barreiro. Actualmente vive em Pirescoxe, a meio caminho entre um castelo do século XV e uma oliveira milenar. Acaba de lançar um novo livro de contos que têm lugar numa sombria cidade imaginada: Saint Paul. Hoje partilhamos, em primeira mão, um dos contos inéditos de O motor do caos e da destruição. Queremos que seja o primeiro a ler A Espada de Deus.
Nos dias mais decadentes do meu alcoolismo, costumava frequentar um bar chamado Nikita situado na zona velha de Saint Paul. Afastava-me de casa o mais que podia, a mesma casa que tinha dividido com Chloe durante alguns meses, até ao dia em que ela se fartou das minhas inseguranças e paranóias. De entre os estabelecimentos que se mantinham abertos para lá das duas da manhã, o Nikita era o meu preferido. Sentava-me numa mesa do canto e passava as noites a beber, alternando a leitura com a escrita, apesar da música alta, das luzes e do fumo. Curiosamente, conheci ali muitas mulheres interessantes, que se aproximavam da minha mesa querendo saber que livro estava a ler ou o que estava a escrever no meu moleskine. Apesar de, na maior parte das vezes, me deixarem sossegado no meu canto com a minha garrafa e os meus livros, não era assim tão invulgar alguém querer sentar-se à minha mesa e partilhar comigo as suas mágoas.
O motor do caos e da destruição de António Bizarro
A capa do livro
Quando me perguntavam se eu era escritor
Quando me perguntavam se eu era escritor, era porque já estavam convencidos disso mesmo. Viam-me a escrevinhar no meu bloco e vinham preparados para me contar uma história qualquer que daria um livro interessantíssimo. Dava-lhes sempre o benefício da dúvida, mas nove em cada dez eram episódios pouco estimulantes do ponto de vista literário. Houve um indivíduo, no entanto, numa certa noite, quando o Nikita já estava quase vazio e a música a um nível bem mais aceitável, que se sentou à minha frente, do outro lado da mesa, fitando o seu copo durante cerca de quinze minutos antes de declarar que tinha sido polícia. Chamava-se Amir Hatzefeld e tinha sido detective da Brigada de Homicídios da Polícia de Segurança Interna durante vinte anos. Vivia perto dali, numa cave, e não possuía televisão, computador, rádio ou telefone. Nas noites de insónia, percorria os escassos metros que separavam a sua casa do Nikita e bebia até ao amanhecer. Quando lhe perguntei por que razão abandonara a PSI, olhou-me nos olhos com uma intensidade maníaca durante o que me pareceram uns cinco minutos, como se estivesse a decidir se eu era de confiança ou não. Por fim, contou-me a sua história, calma e pausadamente, apenas se interrompendo para pedir uma nova rodada sempre que os copos, o seu e o meu, estavam perigosamente próximos de ficarem vazios.
2
Hatzefeld ia a caminho de casa quando recebeu uma chamada da Central a comunicar um homicídio na sua jurisdição. Chegado ao local, cumprimentou os polícias fardados que asseguravam a integridade da cena do crime e passou por debaixo da linha delimitadora. Havia uma ambulância, carros-patrulha e uma multidão composta em partes desiguais por transeuntes curiosos, moradores das redondezas, jornalistas, fotógrafos e operadores de câmara, todos dispostos à volta de uma clareira em cujo centro se encontrava um solitário cadáver caído no asfalto. Deitou o cigarro para o chão, esmagando-o metodicamente com a biqueira da bota, e observou o corpo. O homem, de meia-idade e relativamente bem vestido, estava deitado de costas com os braços abertos e as pernas dobradas no mesmo sentido. Os seus olhos tinham-se afundado nas órbitas, a boca estava escancarada num perpétuo grito mudo. Dois fios de sangue escorriam-lhe dos ouvidos, formando uma poça redonda, quase um círculo perfeito, em redor da sua cabeça, fazendo-o parecer um ícone herético, um Cristo envelhecido com uma auréola carmesim.
— Nada bonito de se ver, este corpus delicti, hein? — disse o sargento Ohrid, acercando-se do detective Hatzefeld.
Sem dizer nada, Hatzefeld acendeu um novo cigarro e voltou as costas para o cadáver. Perscrutou, por entre as nuvens de fumo provenientes dos seus pulmões, a massa de espectadores, alguns deles em roupão e chinelos, equilibrando-se em bicos de pés, tentando espreitar sobre os polícias e o pessoal médico e obter uma melhor visão do falecido. Enquanto isso, o sargento Ohrid debitava, sem tirar os olhos do bloco de notas, os dados recolhidos pela rapaziada de uniforme. A única testemunha, um cavalheiro de provecta idade e sono leve, afirmou ter ouvido um grito lancinante, como se estivessem, e de facto estavam, a matar alguém. Levantou-se da cama, olhou pela janela da sala e viu um homem, a vítima, a cair no chão, inanimado, e dois vultos a afastarem-se. Dificilmente seria capaz de fornecer uma descrição útil dos atacantes. Vestiam longas gabardinas negras e tinham as cabeças cobertas por chapéus pretos de abas largas. E era tudo.
— O nome da vítima?
— Brent. Dr. Cornelius Brent, psiquiatra.
— E aquela ali, quem é? — tornou Hatzefeld, indicando uma jovem encostada a um carro-patrulha a ser confortada por uma paramédica.
— É a filha dele, Anna Brent. Conseguiu fugir e foi pedir por socorro numa estação de serviço a duzentos metros daqui. Forneceu-nos a mesma descrição que o velhote: gabardinas negras e chapéus pretos de abas largas.
— Não vou a casa há quase dois dias — queixou-se Hatzefeld. — Até amanhã, Ohrid.
3
Na manhã seguinte, Hatzefeld recebeu o relatório da autópsia ao Dr. Cornelius Brent, embrenhando-se na sua leitura de chávena de café na mão. O relatório basicamente descrevia o estado em que o corpo fora encontrado, não apresentando, porém, quaisquer conclusões em relação à causa da morte. Os tímpanos do psiquiatra tinham literalmente explodido em mil pedaços, reduzindo o seu cérebro a uma papa sem forma, o que explicava o colapso dos olhos no interior das órbitas. Quanto ao que poderia ter provocado tal morte, sem dúvida dolorosa, não era avançada nenhuma hipótese, por mais descabida que fosse.
— Bom dia — disse o sargento Ohrid, entrando no gabinete sem bater à porta. — Leste o relatório da autópsia?
— Sim.
— E então?
— Então, nada.
— Interessante. É isso que vais dizer à filha dele?
— Ela está aqui?
— Sim, e quer falar com o responsável pela investigação. Mando-a entrar?
— Sim, se fazes favor — disse Hatzefeld, depois de reflectir.
Ohrid abriu a porta e afastou-se para deixar passar a Sr.ª Brent. Anna Brent encheu o gabinete escuro de Hatzefeld com uma presença luminosa, apesar de estar toda vestida de negro. Os seus longos cabelos louros estavam presos na nuca por uma travessa prateada, os seus olhos azuis semicerrados a tentarem habituar-se à semi-obscuridade. Tinha as unhas bem cuidadas, mas não estavam pintadas.
— Detective Hatzefeld — disse ela, inclinando o queixo ligeiramente. — Obrigado por me receber.
— Sr.ª Brent, por favor, sente-se. Permita-me que lhe dê os meus pêsames pela sua perda. Asseguro-lhe, em meu nome e em nome da Polícia de Segurança Interna, de que tudo faremos para capturar os assassinos do seu pai. Devo dizer-lhe, todavia, que isso será uma tarefa difícil, visto que, pelo menos até ao momento, não fazemos a menor ideia do tipo de arma que terá causado a sua morte.
Anna Brent respirou fundo, uma, depois outra vez, e falou numa voz aveludada, porém firme.
— O meu pai foi morto a mando de um homem chamado Severin Andronicus, o líder de uma organização que dá pelo nome de Ordo Sanctoru. A sua missão era, até há bem pouco tempo, guardar o Livro que contém a Palavra. E a Palavra, detective Hatzefeld, foi a arma do crime.
— Sr.ª Brent…
— Por favor, detective, não me interrompa — suplicou ela. — É muito importante que ouça o que tenho para lhe dizer, a minha vida corre perigo. Talvez seja melhor eu começar do princípio.
4
A filha do malogrado Dr. Cornelius Brent tirou um cigarro de dentro da mala e colocou-o entre os lábios. As mãos tremiam-lhe. Hatzefeld esticou o braço por cima da secretária e deu-lhe lume. Apesar do seu óbvio e compreensível cepticismo, dispôs-se a ouvi-la até ao fim. Isso tranquilizou-a.
— Obrigado. Calcula-se que o Livro tenha sido encontrado entre o século I e o século II, algures onde hoje em dia é o Iraque. É uma espécie de bíblia satânica que narra, num tom épico e trágico, a queda de Lúcifer e a sua subsequente transformação em Satanás. Termina com uma profecia: no fim dos tempos, Satanás reinará na Terra. Na última página está a Palavra, supostamente escrita pelo punho do próprio Satanás. A Palavra mata instantaneamente quem a ouve. O Livro foi encontrado por um grupo de peregrinos que, ao descobrir o poder destruidor da Palavra, formou uma ordem monástica para Dela proteger o mundo.
— Porque não destruíram o Livro? — quis saber Hatzefeld, esfregando os olhos com os polegares.
— Fizeram-se várias tentativas para o destruir, todas em vão. O Livro é indestrutível. Quando se lê a Palavra directamente da fonte, além de se ficar na posse do poder de provocar a morte através da sua invocação, fica-se imune aos seus efeitos. Em meados do século XV houve uma cisão no seio da ordem que guardava o Livro. Andromalius, um monge alucinado, convenceu alguns membros da ordem a juntarem-se a ele e a apoderarem-se do Livro. Chamaram-se a si próprios Ordo Sanctoru, a Ordem dos Santos, um subterfúgio inteligente da parte deles para esconder a verdadeira natureza do seu culto, enquanto os restantes membros se auto-intitularam de Gladius Domini…
— A espada de Deus… — cortou Hatzefeld.
— Exactamente. Onde aprendeu latim, detective?
— Estudei num colégio católico. Reconheço algumas palavras, pouco mais…
Anna Brent esmagou o cigarro no cinzeiro, apenas retomando a sua narrativa quando se certificou de que estava bem apagado, com a expressão séria de uma criança concentrada a fazer os deveres.
— Ao longo dos séculos, estas duas ordens foram-se renovando, geração após geração, até aos nossos dias. A Gladius Domini nunca deixou de tentar subtrair o Livro à Ordo Sanctoru. O objectivo da Ordo Sanctoru, traçado pelo próprio Andromalius a partir da sua interpretação do Livro, é extinguir a Humanidade através da Palavra. Apenas serão poupados os iniciados, aqueles que são dignos de receber Satanás quando este vier para reinar. O problema da Ordo Sanctoru no cumprimento do seu objectivo foi sempre a não-existência de meios suficientemente poderosos para levar a Palavra a todos os cantos do planeta. A disseminação da rádio, da televisão e da Internet representam esforços no sentido de se utilizar a Palavra para cumprir a louca visão de Andromalius. O meu pai era da opinião de que isso está muito perto de acontecer. O facto de os membros da Gladius Domini em todo o mundo terem vindo a ser assassinados nos últimos seis meses pelos partidários de Andronicus, reforçou ainda mais a sua convicção. E ontem foi ele… O senhor está perante o último membro da Gladius Domini…
Hatzefeld, que tinha escutado Anna Brent com toda a atenção, fitou-a durante algum tempo, até perguntar:
— E os surdos? Os sem-abrigo e as pessoas que não têm acesso a televisão e a Internet?
Anna Brent esboçou um sorriso cansado, mas compreensivo.
— Existem mais computadores e televisões nos lares deste mundo do que escovas de dentes. Mas, quanto a essas pessoas, e aos surdos também, como salientou, serão eliminadas de formas mais tradicionais. A Ordo Sanctoru tem milhares de membros infiltrados nos mais diversos sectores da sociedade: exércitos, órgãos de comunicação social, governos de vários países… Desde que a matança dos membros da Gladius Domini começou, o meu pai e eu temos andado em fuga. Ele era da opinião de que a melhor maneira de pormos cobro ao plano de Andronicus era matando-o e roubando-lhe o Livro. Sabíamos que ele estava em Saint Paul, graças à nossa extinta rede de informadores. Andronicus nunca se separa do Livro… Ontem fomos descobertos por dois dos seus sequazes… Sei que deve ser difícil para si acreditar em tudo o que lhe contei, mas…
Anna Brent calou-se, segurando o estômago com a mão direita, e uma lágrima escorreu-lhe pela face esquerda. Hatzefeld inclinou-se, oferecendo-lhe um lenço de papel, e disse suavemente:
— Ouça, eu acredito que a senhora acredita naquilo que me contou. O seu pai foi encontrado morto em circunstâncias, no mínimo, bizarras, e, se julga que está em perigo, eu posso tentar arranjar-lhe protecção policial. Mais do que isso não posso fazer…
— Obrigado, detective Hatzefeld. Passei a noite na casa de um antigo colega do meu pai. Ele não faz parte da Gladius Domini e eu não quero pô-lo a ele e à sua família em perigo. Tenho de me manter viva e tentar reorganizar a Gladius Domini. O senhor é a minha única esperança… os nossos informadores garantiram-nos que o senhor era um dos poucos oficiais da PSI que não pertencia à Ordo Sanctoru…
— Os seus informadores estavam correctos, Sr.ª Brent. Agora dê-me licença por alguns momentos, preciso de falar com o sargento Ohrid. Volto já.
5

Hatzefeld saiu do gabinete, fechando a porta com cuidado, como se não quisesse assustar Anna Brent, e permaneceu parado durante alguns segundos. Despertou do torpor de repente quando o sargento Ohrid o interpelou.
— E então?
— E então — disse ele —, a Sr.ª Brent está muito transtornada com a morte do pai. Contou-me a história mais absurda que já ouvi na minha vida e olha que já ouvi histórias que não lembram ao Diabo… Profecias, livros malditos, palavras mágicas, conspiração global, etc., etc.
— O que achas de tudo isto? Tens alguma ideia acerca do caso?
— Pode bem ser que o Dr. Brent tenha morrido de causas naturais ou talvez de alguma doença estranha. Telefona ao Instituto de Medicina Legal a pedir-lhes para explorarem esse ângulo, que estudem o historial clínico da vítima. Se for preciso, que peçam a colaboração do Instituto MacLaren. Segundo ela, eles viajavam bastante, o Doutor pode ter contraído uma doença rara nalgum sítio.
— Sim, então e os vultos que o velhote viu a fugirem do local do crime?
— Pois, um velhote de noventa anos acorda a meio da noite com um grito de gelar o sangue, olha pela janela e vê um homem a cair no chão, e vê dois vultos, duas sombras indistintas e fugidias… Além disso, já ouviste falar de uma arma capaz de derreter o cérebro a uma pessoa, sem ser, talvez, num filme de ficção científica? Eu também não. O mais provável é ter sido uma morte natural.
— Sim, deves ter razão…
— Ouve, vou só à casa de banho num instante. Se vires a Sr.ª Brent a sair do meu gabinete, pede-lhe para esperar por mim, ainda quero falar com ela.
— Está bem.
Antes de entrar na casa de banho, Hatzefeld viu o sargento Ohrid sentar-se à secretária e a levantar o auscultador do telefone. Era bom que os rapazes do IML descobrissem alguma coisa. Se tivesse de entregar um relatório contendo pouco mais do que as declarações de Anna Brent, o capitão mandá-lo-ia internar.
6

— O que aconteceu depois? — perguntei eu, após uma pausa anormalmente longa por parte de Hatzefeld.
— Ouvimos um grito, todos nós ouvimos, vindo do meu gabinete… Ainda o ouço, à noite. Quando entrámos, Anna Brent estava caída no chão, de braços abertos, a boca aberta mostrando a sua dentição perfeita, uma poça de sangue à volta dos seus cabelos louros, o sangue ainda a sair-lhe dos ouvidos, dois buracos negros onde costumavam estar os seus olhos azuis… e a mão crispada à volta do auscultador do telefone… Foi isso que aconteceu…
— E ao sargento Ohrid…? — perguntei eu, perante o vazio que enublava os olhos de Hatzefeld e o tornava mudo. — O que lhe aconteceu?
Hatzefeld encolheu os ombros, sorrindo tristemente.
— Não acredita em mim, pois não, Sr. Dornbusch?
— Digo-lhe o mesmo que disse a Anna Brent: eu acredito que o senhor acredita naquilo que me contou… Mas nós ainda aqui estamos. A vida continua, Satanás não reina sobre a Terra…
O ex-detective levantou-se, esvaziando o copo, e antes de abandonar a minha mesa, disse apenas:
— Matei-o, obviamente.


António Bizarro

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