Valter Hugo Mãe

História original de Valter Hugo Mãe, lida num dos momentos do festival Correntes d'Escritas 2017.
A minha avó paterna foi mãe de vinte e um filhos e, depois de emigrar longamente para França, passou a vir aos verões da Póvoa de Varzim. Era uma mulher da ordem da arquitectura, gigante, com um rosto cansado, a olhar os filhos e os netos como sempre perplexa. A minha avó parecia mais um lugar do que alguém. Diziam-me que era muito fértil. Eu imaginava que se ela segurasse um bago de feijão o faria planta de imediato, se segurasse um caroço de pêssego o tornaria numa árvore de deitar à rua, se tomasse um caule de roseira, ele haveria de florir para se pôr nas jarras do altar, se demorasse nas mãos uma concha de água inventaria peixes pequenos, faria um lago.
Valter Hugo Mãe
O autor, Valter Hugo Mãe
Durante quase toda a vida
Durante quase toda a vida desentendi a minha avó paterna. Circunstanciada por tantas crianças, éramos, alguns, inevitavelmente periféricos, importantes apenas enquanto emanações dos nossos pais, uma espécie de nossos pais em versões várias, a perder a conta e a bulir por toda a parte. Reparava no seu modo perdido quando nos queria chamar, mandar aquietar, calar, sair, ir buscar alguém. Dizia: Jorginho. Jorge era o nome do meu pai. Sabia de quem eu era filho, de certa forma, isso seria o melhor que conseguia fazer. Não conseguia conversar, ao menos, não comigo, um milionésimo neto tímido e espantado. De cada vez que dizia Jorginho eu tomava o nome do meu pai como uma frase completa. O tom da sua voz definia o contexto, definia a ordem. Nunca mais encontrei alguém de tão impressionante economia discursiva. Eu respondia: sim, e punha-me a caminho.

Por causa disto, alguns dos primeiros textos que escrevi foram prelecções que imaginei à minha avó. Se ela houvesse de falar, o que diria, a despacho dos assuntos da vida, a definir-se, feita da experiência única de ser como era, uma mulher como mais nenhuma de que ouvi alguma vez falar. Escrevi-lhe diários breves e monólogos para situações de sociedade. Entendi mais tarde que a expectativa de que ela falasse representava uma esperança de que provasse o afecto. Entendi mais tarde que as palavras eram-me fundamentais para a própria existência do afecto. Como não queria desentendê-la e não queria desgostar, eu escrevia explicações que a minha avó daria aos vizinhos, entusiasmada a enumerar filhos e netos, sabedora de detalhes e nada confusa ou cansada. Era um texto que não desistia. Um texto que avançava. Considerava eu que a conversa teria como resultado a alegria. Eu, que era calado, acreditei a vida inteira que conversar pertence ao foro da alegria.

Naquele tempo, a Póvoa de Varzim ainda era sobretudo de belas casas de praia, as janelas verticais muito altas, como se fossem para esticarmos o pescoço o mais que pudéssemos e assim ver melhor as pessoas engalanadas, a fazerem de conta serem felizes e ricas. Toda a gente tinha a mania de estar bem, mesmo que ninguém estivesse. Talvez fosse de ser verão, andarem de férias, a alegria era convincente aos olhos das crianças. Na praia, a ser constantemente alertado para o facto de me ter demasiado magro, eu julgava que o sentido da vida seria engordar um pouco e conversar. Lembro-me de o dizer aos meus tios, em confissões entre brincadeiras na areia, as tardes abreviando-se pela maldita nortada que abençoa a nossa terra. Disse que queria engordar e conversar. Alguns pegavam-me no ar com uma só mão para ficcionar serem fortes. Quanto pesas. Eu dizia: não sei. Só pesava a brancura dos ossos. O que queres ser quando fores grande. Feliz. Já tinha querido ser bombeiro, polícia, santo, padeiro e professor. Subitamente, parecia-me a felicidade melhor do que uma profissão. Ser, de todo o modo, é bem distinto de fazer.

O meu pai contou-me que a minha avó tinha mandado dizer que eu seria professor porque me preocupava com ouvir as pessoas. Haveria de ter muito para contar. Fiquei estupefacto. A minha avó tinha até imaginado o meu futuro, como se garantisse que eu haveria de ter futuro, mesmo magrinho e espantado. E o meu pai acrescentou: ela diz que tens de ser igual à Póvoa de Varzim, extenso como a praia e forte como o vento. Achei absolutamente normal que a minha avó, que eu via como um lugar, me explicasse ao modo dos lugares também. Hoje, estou convencido de que o meu pai me mentiu porque, como eu, queria que a sua mãe falasse. Inventava-lhe um discurso, uma conversa. Mas também sei que, tantas vezes à falta de interlocutor, melhoramos o mundo a conversar de mentira. Melhoramos o mundo a conversar de mentira, não tenho dúvida alguma. Para isso servem todos os livros e nenhum livro se faz sem essa rendição à maravilha em detrimento da verdade.

Por outro lado, a minha avó materna, que só teve seis filhos, vinha aos verões da Póvoa e tinha mesa cativa no café Guarda-Sol, do lado do passeio, para ver as modas e ser encontrada pelas outras velhotas finas que se juntavam a ela as tardes inteiras. A minha avó materna, meses de praia no Guarda-Sol, conversava. Quando, por excepção, me sentava junto dela, ficava com a impressão de que sabia tudo e conhecia até a mais ínfima criatura que habitava nas cidades de Portugal. Como era bem vestida e bem penteada, com dinheiro e pescoço levantado, as pessoas iam pedir-lhe lições de vida e ela sorria cheia de fé em santos e terços. Tinha uma cultura austera e rigorosa. Creio que toda a gente queria ser assim.

Quando voltávamos a casa, naquela altura ainda vivíamos no interior, eu fazia contas ao que à minha família importava a Póvoa de Varzim e julgava que, se um dia medrasse de facto e pudesse até engordar, com espanto ou sem espanto, haveria de viver numa dessas casas velhas e esticar o pescoço a ouvir e a escrever a pura alegria de conversar.

Há três semanas fui comer uma francesinha ao Guarda-sol, sozinho, à mesa da minha avó. Entendi bem que estar ali, estar aqui, na cidade, é já por definição estar acompanhado. Não admira que só por isso tenha a impressão de conversar.


Valter Hugo Mãe
Por decisão pessoal, este texto não foi escrito segundo o novo Acordo Ortográfico.

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