Entrevista a Carlos Ruiz Zafón

Daniel Sempere já não é aquele menino que descobriu um livro que havia de lhe mudar a vida. O Labirinto dos Espíritos põe fim à saga que apaixonou milhões de leitores por todo o mundo e teve início há mais de 15 anos com A Sombra do Vento. Acompanhámos, página a página, Carlos Ruiz Zafón, nesta última viagem ao Cemitério dos Livros Esquecidos e descobrimos que Alexandre Dumas, père , Honoré de Balzac e Joyce Carol Oates são alguns dos seus escritores de eleição. Leia a entrevista na íntegra.
Como nasceu a ideia do Cemitério dos Livros Esquecidos?
Era o ano de 1998/1999, quando comecei a trabalhar esta ideia de um quarteto de livros, quatro romances, sobre literatura, leitores, escritores, livreiros, editores; e, no centro de toda esta história, existia uma imagem que não me saía da cabeça, que era a imagem desta biblioteca infinita, fantástica, num palácio da cidade velha de Barcelona. E ao pensar nesta imagem, questionei-me: o que existe por detrás disto? E dei-me conta que esta imagem era como uma metáfora, uma metáfora visual, não só de livros perdidos, mas também de pessoas, ideias, memória. Foi em torno desta ideia que comecei a construir as personagens, a trama e tudo foi saindo desta imagem que não me abandonava do Cemitério dos Livros Esquecidos.

Que livro escolheria no Cemitério dos Livros Esquecidos ou que livro o escolheria a si?
Seria difícil porque creio que a própria metáfora do Cemitério dos Livros Esquecidos faz com que possas escolher qualquer livro ou que qualquer livro te possa escolher a ti. Não seria capaz de escolher um só livro, porque para mim são todos os livros, é a palavra escrita, é a literatura. Por isso escolher apenas um livro seria… ficaria anos dando voltas por ali e pegando em mais um livro e mais outro e depois seria impossível sair. (sorriso)
Novo livro de Carlos Ruiz Zafón Novo livro de Carlos Ruiz Zafón
Mas, ainda assim, consegue destacar 4 ou 5 autores que o tenham marcado?
Há muito autores. Há autores da literatura clássica do século XIX, como Charles Dickens, Alexandre Dumas, Victor Hugo, Balzac, toda esta geração de grandes romancistas do século XIX. Depois há muitoS autores da geração do modernismo americano, desde Faulkner, Fitzgerald, e ainda o romance negro americano, que começa nos anos 40-50, Raymond Chandler [por exemplo]. Quando era mais novo lia muito romance negro, muita fantasia, lia de tudo. E depois há alguns escritores contemporâneos (ainda vivos) como a Joyce Carol Oates; John Le Carré é outro dos meus escritores preferidos – para mim, é dos melhores escritores dos últimos 50 anos – e há muitos outros autores de quem eu gosto, mas sou muito mau a fazer listas e a nomear os 4-5 autores que mais me marcaram. Mas são estes: os grandes romancistas do século XIX e muitos do século XX.

A ideia inicial era já escrever uma tetralogia?
A ideia era escrever 4 romances, mas não criar uma saga ou uma história sequencial - antes uma espécie de labirinto, uma história que tivesse 4 portas de entrada; [queria] que estes 4 livros se armassem como um quebra-cabeças e permitissem ao leitor lê-los pela ordem em que eram publicados ou, se preferissem, relê-los por outra ordem… e [o objetivo era] que este quebra-cabeças se fosse compondo independentemente da porta pela qual o leitor decidisse entrar. Esta era a ideia desde o princípio. Depois foi evoluindo, porque demorei bastantes anos a escrever os livros, mas a ideia original era escrever 4 livros.

Agora que a obra está terminada, não sentirá falta deste universo do Cemitério dos Livros Esquecidos?
Posso voltar ao Cemitérios dos Livros Esquecidos, mas não é a minha ideia, não é o projeto. O projeto que concebi era para estes 4 livros. Como o universo é muito rico e tem muitas personagens, poderia continuá-lo, mas não está previsto fazê-lo. Se daqui a 20 anos, ainda estiver vivo e a escrever, e me apetecer, não haverá problema [em voltar], mas não é o que vou fazer agora nem nos próximos anos. Para mim este projeto eram estes 4 romances e está fechado.

Não sentirá falta das personagens?
Não sinto a sua falta porque a mim acontece-me uma coisa bastante curiosa que é: as personagens não me abandonam. Quando acabo um livro, as personagens ficam comigo, dentro de mim, o que faz com que nunca sinta falta das personagens que criei porque elas permanecem comigo, são uma parte de mim, são uma parte da minha vida. Acredito que os leitores irão sentir falta das personagens, se se tornaram amigos delas, mas eu tenho-as comigo (aponta para a cabeça) e, mesmo que quisesse, nunca conseguiria afastá-las porque vivem no sótão.
Acompanhamos Carlos Ruiz Zafón nesta última viagem ao Cemitério dos Livros Esquecidos, desejando, à semelhança do autor, que “o leitor tenha aberto o coração a alguma das suas criaturas de papel e lhe tenha entregado qualquer coisa de si para torná-la imortal, ainda que seja só por uns minutos”. A entrevista pode ser visualizada abaixo:
Entrevista | Carlos Ruiz Zafón

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