Editorial da semana: reflexões poéticas

Reflexões de uma gestora de conteúdos de Literatura.
Há um poema de Robert Frost muitas vezes citado na Internet e no Facebook de forma truncada:

"Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference."
Gestora de conteúdos de Literatura
Editorial da semana
Geralmente este excerto é usado para acentuar que o facto de escolhermos o caminho menos óbvio e comum faz toda a diferença. Mas na verdade o que o poema (integral) diz é o seguinte:
The Road Not Taken
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Traduzindo e resumindo, certa manhã o poeta depara-se com dois caminhos num bosque e lamenta não poder seguir ambos. Demora-se a olhar um deles e acaba por tomar o outro, apesar de os dois serem igualmente bonitos, gastos e cobertos de folhas: "the passing there / Had worn them really about the same, / And both that morning equally lay / In leaves no step had trodden black." Termina dizendo que provavelmente nunca voltará ao primeiro caminho e que muitos e muitos anos mais tarde há-de afirmar com um suspiro que escolheu o caminho menos percorrido e que isso fez toda a diferença. Mas antes acabara de descrever os dois caminhos como sendo em tudo semelhantes!
Na minha opinião
Este poema é acerca do sentido que procuramos dar a posteriori às nossas escolhas (e à nossa vida), tentando imbuí-las de um significado superior, como se ele estivesse lá desde o início. Não está. Não existe nenhum sentido nem a priori nem a posteriori, tirando aquele que nós próprios construímos e fantasiamos. Mas a nossa necessidade de sentido é tão grande que criámos religiões, explicações científicas, narrativas e mutilamos poemas, deturpando-os. :) Não importa que pouca gente no mundo consiga realmente compreender a teoria do big bang, o funcionamento do universo e grande parte dos fenómenos físicos. O facto de sabermos que alguém como nós consegue perceber e explicar a natureza através de equações conforta-nos, mesmo que na verdade a existência ou não de Deus e a capacidade da nossa espécie para compreender e deslindar a gravidade não tenham impacto absolutamente nenhum na nossa vida de todos os dias. A metafísica tem muito pouco a ver com o dia a dia e a nossa vida é uma junção de dias, uns atrás dos outros. Não existe nenhum caminho definido à partida que nos leve fatalmente ao ponto A ou B. Todos os caminhos levam a Roma, se o que queremos é chegar a Roma. Felizmente há poucas coisas com poder para interferir e condicionar a nossa vida de forma decisiva (doenças graves, eventos traumáticos como abusos sexuais ou psicológicos e ainda, infelizmente, o lugar onde nascemos, a nossa cor de pele e o nosso género). De resto, a vida é toda nossa. É bom, mas é também assustador. Não temos ninguém para culpar pelas nossas frustrações a não ser nós mesmos. Desculpem-me estas divagações. Se estivesse a sul do Equador diria, como Drummond, "essa lua, esse conhaque botam a gente comovido como o diabo." Não bebo e estou no norte, por isso justifico-me com o frio e os dias pequenos, com pouca luz, que me deixam mais sombria e cismada.


Patrícia Mota, gestora de conteúdos de literatura

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