«Palácio dos Quartos Alugados»
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5 de fevereiro de 2026
António Botto (1897–1959), poeta nascido na Concavada e criado em Lisboa, destacou se pelo lirismo singular e pela ousadia temática. Autor de Canções (1921), obra pioneira de poesia homoerótica que escandalizou a época, tornou se figura central da modernidade literária portuguesa. Amigo próximo de Fernando Pessoa, que o prefaciou e defendeu, Botto deixou uma marca decisiva na poesia do seu tempo.
O novíssimo Caderno Proibido reúne poemas inéditos de António Botto. Ambientado no calor do Brasil, país para onde o poeta se exilou após ter sido despedido do seu trabalho de escriturário em Portugal, por razões económicas e devido ao ambiente homofóbico de que era alvo. Neste livro, encontramos «os poemas mais “chocantes” do autor – sem subterfúgios, carnais e explícitos, mas também «a expressão das mais profundas relações amorosas, dos mais intensos sentimentos, de paixão e de emoção, mas também de ciúme e posse, sexo e emoções estéticas», como se lê no prefácio de Victor Correia.
PALÁCIO DOS QUARTOS ALUGADOS (Versão I)
Palácio dos quartos alugados.
Beberam, e caíram abraçados
No abraço total da violência penetrante,
Para lá dessa medida procurada,
No além do tal quadrante
Que nunca nos dá o complemento
De um desejo banal de amor, ou não.
Só os corpos falavam, nessa nudez,
Da elegância masculina de uma ginástica sadia,
Para haver, mais uma vez,
A impressionante simpatia
De duas forças que se procuram
Num convívio de alegria.
Ambos no desvario conciso, inteligente, espiritual
Procuravam fazer diferente
De tal atracção
Natural, ou instintiva
Que dizem ser primitiva,
À face da lei moral.
Decretos e leis, preconceitos e doutrinas,
Inventados pelo abuso de uma sociedade de zero,
São gravatas ou coleiras
Que eu não compro e nem quero.
Enterradas as cabeças
Nos altos peitos lavados
Cheirando a saúde e a limpeza,
Principiaram na luta
De um quadro raro de beleza.
António Botto, Caderno Proibido, Guerra & Paz, janeiro de 2026, pp. 23-24
O novíssimo Caderno Proibido reúne poemas inéditos de António Botto. Ambientado no calor do Brasil, país para onde o poeta se exilou após ter sido despedido do seu trabalho de escriturário em Portugal, por razões económicas e devido ao ambiente homofóbico de que era alvo. Neste livro, encontramos «os poemas mais “chocantes” do autor – sem subterfúgios, carnais e explícitos, mas também «a expressão das mais profundas relações amorosas, dos mais intensos sentimentos, de paixão e de emoção, mas também de ciúme e posse, sexo e emoções estéticas», como se lê no prefácio de Victor Correia.
PALÁCIO DOS QUARTOS ALUGADOS (Versão I)
Palácio dos quartos alugados.
Beberam, e caíram abraçados
No abraço total da violência penetrante,
Para lá dessa medida procurada,
No além do tal quadrante
Que nunca nos dá o complemento
De um desejo banal de amor, ou não.
Só os corpos falavam, nessa nudez,
Da elegância masculina de uma ginástica sadia,
Para haver, mais uma vez,
A impressionante simpatia
De duas forças que se procuram
Num convívio de alegria.
Ambos no desvario conciso, inteligente, espiritual
Procuravam fazer diferente
De tal atracção
Natural, ou instintiva
Que dizem ser primitiva,
À face da lei moral.
Decretos e leis, preconceitos e doutrinas,
Inventados pelo abuso de uma sociedade de zero,
São gravatas ou coleiras
Que eu não compro e nem quero.
Enterradas as cabeças
Nos altos peitos lavados
Cheirando a saúde e a limpeza,
Principiaram na luta
De um quadro raro de beleza.
António Botto, Caderno Proibido, Guerra & Paz, janeiro de 2026, pp. 23-24