«Ser de outra maneira»

26 de novembro de 2025
Marcados por um lirismo místico e imagens precisas, as obras do poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926) influenciaram profundamente a literatura em língua alemã do século XX. Nos 150 anos do seu nascimento, a Assírio & Alvim revisita a obra deste poeta singular, editando Exposto Sobre as Montanhas do Coração – antologia seguida de O Testamento.
«Rilke foi talvez o último poeta a viver como tal, isto é, muito lido e apreciado, com uma vida social intensa em períodos específicos, convivendo essencialmente com o meio artístico. Os aristocratas e empresários com que convivia punham à sua disposição palácios e castelos para, em silêncio, começar e acabar as suas obras», conta-nos Maria Teresa Dias, sua tradutora de sempre, no prefácio deste novo livro.
A poesia de Rilke transmite a dificuldade de comunhão com o inefável numa era de descrença, solidão e profunda ansiedade, tornando-o numa figura de transição entre os poetas tradicionais e modernistas, como este poema que transcrevemos demonstra:


SER DE OUTRA MANEIRA

(O caminho da intimidade para a grandeza passa pelo sacrifício.
Kassner)

Por muito tempo o conseguiu olhando.
As estrelas ajoelhavam-se
sob o olhar em luta.
Ou ele olhava de joelhos
e o perfume da sua intensidade
fatigava algo divino
de modo a sorrir-lhe enquanto dormia.

Olhava assim torres
amedrontadas:
construindo-as de novo, avançando, de súbito, numa só!
Mas quantas vezes a paisagem
sobrecarregada pelo dia
repousava na sua serena percepção, à noite.

Os animais entravam confiantes
no aberto olhar, pastando,
e os leões presos
olhavam estarrecidos para dentro,
como para uma liberdade incompreensível;
os pássaros acabavam de o sobrevoar,
acolhedores; as flores
nele se reflectiam
grandes, como nas crianças.

E o rumor de que existia um observador
tocava os mais pequenos,
visíveis, questionáveis,
tocava as mulheres.

Olhando quanto tempo?
Desde quando demorou a prescindir do íntimo,
suplicando do fundo do olhar?

Quando, em espera, sentado no que lhe era estranho;
alheio à estalagem, no quarto afastado
e rude em volta e no espelho evitado
de novo o quarto
e depois, a partir da cama incómoda,
de novo:
deliberava-se no ar,
inconcebivelmente se deliberava
sobre o seu coração sensível,
sobre o seu corpo abalado dolorosamente,
no entanto o sensível coração
deliberava e julgava
que nele não havia amor.

(E proibia outras solenidades.)

Pois observar, vê, é um limite.
E o mundo mais observado
Quer prosperar no amor.

Os trabalhos do olhar estão consumados,
opera agora os trabalhos do coração
nas imagens dentro de ti, presas; pois
dominaste-as: mas agora não as conheces.
Vê, homem interior, a tua rapariga interior,
conquistada entre
mil naturezas, esta criatura
primeiro apenas adquirida
e ainda não amada.


Rainer Maria Rilke, Exposto Sobre as Montanhas do Coração, Assírio & Alvim, novembro de 2025, pp. 193-195

Livros relacionados

Wook está a dar

Subscreva!