«O Fim dos Estados Unidos da América – Epopeia»

11 de dezembro de 2025
Gonçalo M. Tavares brinda-nos com mais uma exploração radical das tensões políticas, sociais e filosóficas, ampliando o seu universo literário marcado por distopias, sátiras e reflexões sobre o destino humano: O Fim dos Estados Unidos da América – Epopeia.

A epopeia inicia-se com a chegada misteriosa da peste ao país. Ted Trash, representante da extrema-direita, e Left Wing, da extrema-esquerda, desencadeiam uma nova guerra civil, acentuando conflitos entre pobres e ricos. No centro da narrativa surge Bloom, herói trágico que tenta salvar a nação, sempre marcado pela lembrança de La Rosa, a mexicana que conheceu num estádio.

Entre as diversas figuras que compõem este universo estão Johnston Bonne, engenheiro anarquista e excêntrico; Jonathan e Mary, ativistas utópicos; Tirésias, profeta cego, o Dr. Robert, cientista racionalista e Mack Morris, contemplador de nuvens, além de animais simbólicos como moscas tsé-tsé, borboletas e búfalos.
Como estamos perante uma tragédia greco-americana, destino e intervenção divina moldarão pensamentos e ações.
Tudo começa aos poucos, levemente, com um jogo de futebol americano:



A nação pára. A ansiedade é grande. Todos se preparam para o direto na televisão. Os Yankees jogam contra os Los Angeles Rams

1.
No início era o futebol americano, coisa bruta mas séria.

Uma máquina colocada nas salas de famílias sensatas e inteiras,
nos bares e nas montras de algumas lojas, a televisão.
Nada nação americana, dois metros de cérebro acima
do território, está imune ou indiferente ao jogo decisivo em direto.

2.
Metade dos Estados Unidos da América ali está,
em termos de temperamento e posição,
com uma calma do catano, estritamente falando;
imobilidade que só não aprofunda porque o ecrã
não tem nuca – só superfície, pele que se dá a ver.

3.
Mas vejamos o que se vê em direto na TV.

Um sistema nervoso incipiente, nesse crânio oval sem tronco,
que saltita em ângulo imprevisível acima do retângulo
absolutamente americano, a bola – eis uma definição possível.
Entre pancadas de punho e lançamentos longos e violentos
que só de ver parecem suficientes para abrir ao meio,
    e para sempre,
a preguiçosa clavícula do narrador,
esse sistema nervoso oval, só exterior e sem uma ideia, a bola,
ela mesma, exige a atenção quase imediata sem intermitência
do sistema ótico do raciocínio, mente e alma, caso ela exista,
dos cidadãos sentados, republicanos e democratas.

4.
Bloom ali está também, sim, aquele que mais tarde salvará a
          nação,
mas na própria bancada, cadeiras em L largo:
bota rabo em reta posição, costas em curva para a frente,
que belo; está quase em yoga position.
Creonte, esse, com pés em batuque
de adepto feio dançarino do tornozelo para baixo.
Os dois tanto estão atentos como os mil e muitos ali ao lado.

5.
A beleza, já se sabe, não necessita de expectativa: é algo
que se aloja no presente e ali fica; por vezes ocupando
o tempo por completo como um recipiente por água
   preenchido até ao topo.
Já o jogo não é apenas fenómeno estético. Ninguém fica hora
e meia, duas horas, diante de uma formusura qualquer,
mesmo que ela se mova. É necessária incerteza, expectativa,
ansiedade e, acima de tudo, uma tomada de
posição lúdica mas política: por quem a minha alegria se inclina,

eis a questão simples, mas central,
em Bloom, Creonte, e em cada um dos senhores sentados,
    no estádio ou em casa;
no jogo ou na política, na morte das mortes ou na vida entusiasta.


Gonçalo M. Tavares, O Fim dos Estados Unidos da América - Epopeia, Relógio D'Água, novembro de 2025, pp. 19-21

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