Mini-entrevista a Ana da Cunha

Ana da Cunha (Porto, 1996) é licenciada em Teatro-Interpretação, pós-graduada em Dramaturgia e Argumento e mestre em Jornalismo. Em 2016, venceu o Prémio Aldónio Gomes com a obra (Des)Controlo e, em 2025, o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho com a obra Sodade. É jornalista na Mensagem de Lisboa.
«Fidj, que é feito do Carlitos?». São estas as últimas palavras da mãe de Zé, um notário de cerca de quarenta anos, casado e pai de dois filhos, com raízes cabo-verdianas. Esta pergunta, que se tornará uma obsessão, levá-lo-á a confrontar o passado e a revisitar um velho edifício, um lazareto que foi em tempos casa de mais de duzentas famílias vindas de Cabo Verde: o Asilo 28 de Maio. Um romance sobre o poder transformador dos livros e da amizade.

Citação:
«A melhor parte de tudo é podermos criar uma realidade, um cantinho, só nosso. Um lugar onde nós ditamos as regras, muito embora as personagens acabem também por nos tramar.»
 Ana da Cunha
Ana da Cunha
Como surgiu a ideia para este livro?
Sodade nasceu de uma grande reportagem que realizei em 2023 para a Mensagem de Lisboa. Foi-me pedido que investigasse a história de um grande edifício, localizado no cume de Porto Brandão, em Almada, que fora recentemente vendido: o Lazareto. O Lazareto, vim a descobrir, era onde os viajantes que chegavam a Lisboa no século XIX e eram obrigados a permanecer em quarentena, impedindo-se assim o contágio da cólera e da febre amarela. Mas a história do edifício não se esgotava aí: assim que a sua função se tornou obsoleta, o Lazareto foi transformado em Asilo 28 de Maio, um orfanato que funcionou durante o século XX até que uma tragédia ditou o seu fecho. Depois do 25 de Abril, o Lazareto/Asilo 28 de Maio tornou-se casa de 600 pessoas que chegaram a Lisboa vindas sobretudo de Cabo Verde. A reportagem levou-me a conhecer quem vivera no edifício labiríntico, e as suas vivências fascinaram-me de tal forma que eu não conseguiria limitar-me a uma reportagem jornalística. A história de vida – e o reencontro – de dois amigos foram o ponto de partida para escrever a história de Zé, um notário de cerca de quarenta anos com raízes cabo-verdianas, que, ao ouvir as últimas palavras da sua mãe, decide empreender uma busca pelo amigo que todos julgam morto, o “Carlitos”. Nessa busca, Zé viaja no tempo, recordando a sua infância e juventude no Asilo 28 de Maio.
 
Tem uma rotina de escrita?
Quando era mais nova, costumava acordar todos os dias relativamente cedo para escrever. Com o trabalho, tive de reestruturar um bocadinho esse hábito. Costumo escrever sobretudo aos fins-de-semana, em cafés. Gosto do barulho e da confusão. Sodade foi praticamente todo escrito em cafés da Gare do Oriente e, ocasionalmente, à noite, no meu quarto, enquanto ouvia música.

Como lida com um bloqueio criativo?
Forçando-me a escrever, desafiando a página em branco. Em dias mais difíceis, dou longos passeios, nos quais vou imaginando as vidas das minhas personagens e as peripécias com que se vão deparando. Voltar atrás e reescrever também ajuda a lançar-me novamente à página em branco.

Qual é a pior e a melhor parte de ser escritor?
A melhor parte de tudo é podermos criar uma realidade, um cantinho, só nosso. Um lugar onde nós ditamos as regras, muito embora as personagens acabem também por nos tramar. O pior... talvez o bloqueio criativo, sim, que nada mais é do que um desafio no jogo da escrita.

Há algum tema sobre o qual não goste de ler ou escrever?
Penso que não, tudo é passível de ser transformado em boa literatura.

Se pudesse partilhar um jantar com qualquer autor (vivo ou morto), quem escolheria?
Virginia Woolf.

Qual o livro que já devia ter lido e ainda não leu?
Ulisses, de James Joyce.

Qual o livro que mais a marcou até hoje?
Pergunta difícil. São muitos... Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, marcou particularmente a minha infância. À Espera no Centeio, de J.D. Sallinger, a minha adolescência. A tetralogia de Elena Ferrante, os primeiros anos da vida adulta. Mais recentemente, a série de livros Lucy Barton e Olive Kitteridge, de Elizabeth Strout, deixaram a sua marca...

Qual foi o último livro que ofereceu?
Não me estou a lembrar do último livro que ofereci... mas emprestei recentemente O Últmo Avô, de Afonso Reis Cabral.

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