«Marcha das Aspas»

20 de agosto de 2025
Duarte Scott nasceu em Lisboa, mas viveu metade da sua vida no Reino Unido. Escreve em português e em inglês. Depois da sua estreia na escrita com Exposição, lança agora Terreno, uma obra que integra a Coleção de Poesia dirigida pelo poeta e crítico Pedro Mexia. É este último quem explica o livro:
«Há três terrenos em Terreno: o externo, o terno e o interno. Ou seja, terreno é aqui um substantivo equivalente a espaço, material ou imaterial. É também um adjetivo (o livro de estreia do autor, Exposição, permitia igualmente dois sentidos sobreponíveis: o museu e o mostrar).»
Espreitamos um poema do terreno externo desta obra.

Externo

MARCHA DAS ASPAS

Na lapela, engastas flores que os dedos mancham.
Escutas «Norte» e marchas como mula mansa.
Sem trela te trazem. Não julgas. Não mordes.
Doce, o som das ordens. Dão-te corda, e corres.
Feiras, para que «fujas»: depressa regressas.
Noites, para que «dances», bebas bem, descendas,
Durmas – a e te esqueças. Rumo à «vida» avanças.
Ouves «morte» e choras. Na morte, não pensas.
Sonhas, talvez: sonhos de que não acordes.
Filhos longe deixam os teus restos: marcham.
Na lápide, murcham flores que te festejam.

Duarte Scott, Terreno, Tinta da China, agosto de 2025, Pág. 17

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