Livros que queimam

Madalena Sá Fernandes
16 de julho de 2025
Quando pensamos no verão, imaginamos praias, tardes lentas, corpos ao sol, a suspensão momentânea das responsabilidades. Mas a literatura, com a sua vocação para perturbar imagens fixas, costuma retratar o verão de outra forma: não como estação da leveza, mas da vertigem. Há algo na luz excessiva, no calor imóvel, na dilatação do tempo que parece favorecer não o repouso, mas o colapso, como se a própria claridade arrastasse consigo um pressentimento de ruína.
Os quatro livros que aqui se encontram têm em comum esse outro verão: não o que consola, mas o que desvela; não o que relaxa, mas o que desafia e, por vezes, até o que enlouquece.
Luz em Agosto, de William Faulkner
O verão do Sul dos Estados Unidos é espesso, brutal, impiedoso. Faulkner ambienta neste calor quase bíblico uma narrativa de culpa, violência e exclusão, em que a luz parece aumentar a opressão em vez de dissipá-la. Joe Christmas, figura trágica e enigmática, carrega no corpo a ambiguidade racial que o condena socialmente, mesmo que ele próprio não saiba, ou não diga, quem é. A luz não é revelação divina, mas exposição brutal: torna tudo visível demais, insuportavelmente visível. O verão, neste romance, é uma estação da perseguição e do sacrifício.
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Verão, de J.M. Coetzee
Em Verão, Coetzee escolhe descentrar-se: apresenta uma falsa biografia sua, construída a partir de entrevistas com mulheres que teriam marcado a sua vida. O autor aparece como figura esvaziada, pouco admirável, desinteressante até. É um exercício de autocrítica mas também de despersonalização. Aqui, o verão é um tempo posterior: uma espécie de pós-vida, em que o que resta não é a plenitude da estação, mas a sua sombra. O livro, atravessado por um humor seco e melancólico, desmente qualquer ideia romântica da maturidade como tempo de realização. O Verão é o tempo em que tudo está demasiado à vista, e talvez por isso tudo pareça desprovido de encanto.
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O Estrangeiro, de Albert Camus
Poucos livros condensam tanto o peso metafísico do verão quanto este. Desde as primeiras páginas, o calor é um personagem: asfixiante, agressivo, cúmplice de um crime que ocorre, segundo o protagonista, quase por acidente, por excesso de luz.
«Foi no calor do verão. O sol batia-me no rosto». Assim começa o assassinato mais enigmático da literatura moderna. Meursault é um homem que parece não sentir, ou recusa sentir, o que o mundo espera dele. A morte da mãe, o amor, o homicídio, tudo é relatado com a mesma neutralidade solar. Mas por trás dessa indiferença há uma filosofia inteira: a do absurdo. Em Camus, o verão é o cenário perfeito para revelar a ausência de sentido no centro da existência. O céu azul é impenetrável. A luz não responde.
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Férias de Agosto, de Cesare Pavese
O calor do interior italiano serve de pano de fundo para um regresso à terra natal, e, com ele, a um passado irresoluto. Pavese, sempre atento às fissuras da consciência, compõe um romance em que as férias são tudo menos descanso. O tempo parece suspenso, a paisagem é ao mesmo tempo familiar e estranha, e os encontros, em vez de apaziguar, desestabilizam. Há uma nostalgia árida, quase geológica, como se o verão tornasse visíveis não só os contornos da infância, mas também os seus abismos. O narrador move-se num tempo estagnado, onde cada gesto é sombra de outro, mais antigo e mais doloroso.
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Estes livros mostram que o verão pode ser a estação do excesso: de luz, de silêncio, de memória, de desencanto. Quando tudo parece estar à vista, somos confrontados não com a clareza, mas com o vazio. O sol não aquece: consome. O tempo não desacelera: paralisa. Há algo de cruel neste verão literário: é o tempo em que não se pode fugir, em que tudo fica demasiado nítido para ser ignorado.
Talvez por isso esses verões sejam tão inesquecíveis. Porque queimam.

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