«Dos desejos»
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11 de setembro de 2025
Rute Simões Ribeiro foi finalista do Prémio Leya em 2015 e vencedora do Prémio Hugo Santos, com O Homem Sem Mim, em 2023.
Em A Breve História da Menina Eterna, explora o tema da finitude da vida, através de uma protagonista, nascida num lugar onde um véu cobre a palavra Morte, a que chama M. – a mesma consoante com que começam as palavras Mistério, Milagre, Menina ou Mãe.
Um romance belo e breve sobre a compreensão da vida, de que deixamos um excerto.
Dos desejos
Eve olhou para ela e a verdade tomou-a. Tinha dois anos, descobria um mundo no caminho de uma formiga. Devolveu à mãe o riso que leva o que não conhece. Ela soube ali. Morreria. Morrerá. Morrerás. Assim como nunca havia sido, haveria de deixar de ser. Nascera para morrer. O peito atomizou-se. Perguntou para quê. Zangou-se com o engano da natureza, com a humanidade perpetuada. À custa de filhos nascidos. Por tantos queridos. E tantos os nascidos são quanto os que mortos serão. A zanga não fez forças com o que não podia fazer mais. Era preciso deixá-la agora crescer, adiar-lhe a morte. Mas a dúvida carregou-se nela, assentou no arrependimento e cruzou-se com a possibilidade iminente do fim. Na ausência de realidade que lhe bastasse, decidira fazer de conta.
Rute Simões Ribeiro, Breve História da Menina Eterna, Editora Nós, 2025, p. 13
Em A Breve História da Menina Eterna, explora o tema da finitude da vida, através de uma protagonista, nascida num lugar onde um véu cobre a palavra Morte, a que chama M. – a mesma consoante com que começam as palavras Mistério, Milagre, Menina ou Mãe.
Um romance belo e breve sobre a compreensão da vida, de que deixamos um excerto.
Dos desejos
Eve olhou para ela e a verdade tomou-a. Tinha dois anos, descobria um mundo no caminho de uma formiga. Devolveu à mãe o riso que leva o que não conhece. Ela soube ali. Morreria. Morrerá. Morrerás. Assim como nunca havia sido, haveria de deixar de ser. Nascera para morrer. O peito atomizou-se. Perguntou para quê. Zangou-se com o engano da natureza, com a humanidade perpetuada. À custa de filhos nascidos. Por tantos queridos. E tantos os nascidos são quanto os que mortos serão. A zanga não fez forças com o que não podia fazer mais. Era preciso deixá-la agora crescer, adiar-lhe a morte. Mas a dúvida carregou-se nela, assentou no arrependimento e cruzou-se com a possibilidade iminente do fim. Na ausência de realidade que lhe bastasse, decidira fazer de conta.
Rute Simões Ribeiro, Breve História da Menina Eterna, Editora Nós, 2025, p. 13