«Cravo Branco», um poema luminoso de António Borges Coelho

13 de agosto de 2025
António Borges Coelho, nascido em Murça em 1928, tem, a par da sua carreira de historiador, uma bibliografia que inclui poesia, ficção, ensaio e teatro. Aliás, é mesmo pela poesia que a sua vida literária começa, com a publicação de Roseira Verde, em 1962. No seu novo livro, Poemas, encontramos uma coletânea-balanço dessa produção literária, revista uma última vez pelo autor.

CRAVO BRANCO

Como está pronta a terra para a semente
assim estavas debaixo do meu braço
os nossos corações estavam tão juntos
que não havia entre eles o menor espaço

Na botoeira do meu fato escuro
pregaste um cravo branco
não sabia que no teu peito
nasciam cravos de uma tal brancura

Um funcionário cansado
leu em voz monótona os papéis
dissemos – Sim! –
e cumpriram-se as leis.

O Sol deitava bagos de arroz amarelo
ondas pequenas vinham rebentar
na muralha
como garotos endiabrados
a pedir rebuçados

As gaivotas pelo céu piavam
voltei para a cela só olhando o mar
a tua falta era um cravo branco cortado
no meu peito a sangrar*

*3 de janeiro de 1959, casamento em Peniche com a Isaura

António Borges Coelho, Poemas, Editorial Caminho, 2025, pp. 72-73

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