«A chuva afogava os pés das mesas»

15 de abril de 2026
Ana Isabel Mouta (n. Porto, 1981), psicóloga, é atualmente investigadora na área dos Estudos Críticos de Inteligência Artificial, com foco em agência humana e educação. Após a sua estreia na poesia em 2024, com o surpreendente Paiol, a autora lança agora o seu primeiro livro pela Assírio & Alvim, Alçapão. Revestidos de um manto espesso de mistérios, estes novos poemas convidam a explorar ambientes metafóricos e palavras num espaço liminar muito próprio.


[A chuva afogava os pés das mesas]

A chuva afogava os pés das mesas
as patas de galo num afã-relento
Era o dia sete dos heterónimos de março
e uns olhos cobiçavam as tertúlias que fazias
Dobra o creme com as nuvens dizias-me
E passava da alma ao corpo
a oficiosa raposinha
Verificava os nossos vivos
entre todos os já mortos
Como um signo como um sinal
dizias Vergílio ou Mário
e todos olhavam noutra direcção
homens como esses já não há
Pois então o Mário dos venenos
tombado em Camarate
num grandíssimo pobre adeus
Só eu sabia o que dizias
aos meus ouvidos sussurrados
enquanto ríamos infectados
as relingas os cabos
cosidos içados
ao largo dos pescoços
Hoje sozinha limpo uma cabaça
onde amadureça
o teu céu pequenino


Ana Isabel Mouta, Alçapão , Assírio & Alvim, abril de 2026, pp. 53-54.

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