Júlio Pomar - Estudos para o Romance de Camilo de Aquilino Ribeiro

de Júlio Pomar
Editor: Arte Mágica, junho de 2005 ‧
Os desenhos para o "Romance de Camilo"

Desenhar será pôr em situação os elementos de uma relação. A ilustração de um texto poderá ser encarada como a hipótese de visualização da sua leitura, uma espécie de síntese do que o texto evoca. E por outro lado a ilustração servirá de pretexto à uma análise das situações que constituem a narrativa e será o resultado da selecção dos elementos que deverão assegurar a necessária e comunicabilidade.
Do já visto se partirá para o imaginado, e aí se irá revelar a qualidade do observador, a invenção do artista e o entendimento do leitor que este começou por ser.

Para esclarecimento do visitante desta exposição, sublinha-se o facto que os desenhos que nela se mostram não são os que integraram a edição original do livro de Aquilino, perdidos por incúria minha, mas os que se guardaram entre todos os estudos que preparam aqueles. Cada um dos desenhos que devia servir de ilustração fora ensaiado e repetido tantas vezes quanto as julgadas necessárias para a clareza da imagem, tal como o actor busca limpidez na boa articulação das palavras que compõem o texto dramático. A maior parte destes desenhos foi destruída, conservando-se apenas aqueles em que se julgou ver uma hipótese de clareza.

Júlio Pomar

A obra de Júlio Pomar revela com grande frequência uma relação muito estreita com a literatura. É extensa a lista das suas incursões nesse campo, abrangendo, entre outros, obras e nomes como os de Baudelaire e Jorge Luís Borges, Fernão Mendes Pinto e Luís de Camões, Edgar Poe e Fernando Pessoa, Dante Alighieri e José Cardoso Pires. O voo lírico, a ironia, a estranheza, o desassossego, a dimensão simbólica, reencontram-se nesse processo criativo de figuração e refiguração plástica de situações, de posturas, de atitudes e fisionomias, de circunspecções e divertimentos, por vezes em notações extremamente sintéticas, por vezes em exercícios de um ludismo realista e vertiginoso.
À perspectiva do ilustrador de textos que sabe, de um modo certeiro, colher as sugestões neles contidas, junta-se a obra do retratista de autores, formando já uma considerável galeria de celebridades. Também aí, Pomar é de uma argúcia e de uma “literariedade” fora do comum, porquanto, no seu tão característico virtuosismo de execução, alia a uma reconhecibilidade perfeitamente conseguida, e por assim dizer emblemática, da figura do autor retratado, uma espécie de síntese penetrante que decorre da sua própria leitura da obra dele. Ou, se se quiser, Pomar propõe-nos visão e uma leitura, a sua visão e a sua leitura, da obra e do homem em termos tão pessoais e idiossincráticos que é como se cada um dos seus retratos de escritores funcionasse como um quase heterónimo do pintor...
Vemos da presente série que o desenho a nanquim, a que recorre quase sempre, é também uma «forma de escrita», ágil, pitoresca, cheia de movimento, capaz de ângulos e planos quase cinematográficos, inesperados e saborosos na maneira de exprimir, nas suas rápidas notações, aquilo que o texto literário diz ou implica, quer se trate de situações individuais, quer de pequenos grupos ou conjuntos, quer de massas populares em agitação. Nestas ilustrações para o Romance de Camilo, de Aquilino Ribeiro, o traço e a mancha dão sucessivas expressões à ironia e à sátira, revisitando o mundo camiliano do século XIX pelo pincel de um grande pintor do século XX.

Vasco Graça Moura

Júlio Pomar - Estudos para o Romance de Camilo de Aquilino Ribeiro

de Júlio Pomar

Propriedade Descrição
ISBN: 9789896050252
Editor: Arte Mágica
Data de Lançamento: junho de 2005
Idioma: Português
Dimensões: 249 x 319 x 19 mm
Encadernação: Capa dura
Páginas: 162
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Arte > Pintura
EAN: 9789896050252
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável

Delicioso

FBR

Seja para os apreciadores da obra literária de Aquilino Ribeiro, seja para os amantes da Pintura, nomeadamente de Júlio Pomar, um livro imprescindível e delicioso.

SOBRE O AUTOR

Júlio Pomar

Júlio Pomar (Lisboa, 10 de janeiro de 1926 — Lisboa, 22 de maio de 2018). Frequentou a Escola de Arte Aplicada António Arroio e a Escola de Belas-Artes do Porto. Lá, integrou um movimento que se autointitulava «Os Convencidos da Morte» e organizou a primeira Exposição da Primavera, no Ateneu Comercial, com a participação de artistas antifascistas. Em 1950, realizou em Lisboa uma exposição individual na Sociedade Nacional de Belas Artes, onde apresentou obras marcantes da pintura portuguesa. Até 1975, o seu trabalho incide principalmente no retrato, com recurso ao desenho e à pintura. Substituiu o óleo pelo acrílico. Tem uma Fundação com o seu nome.

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