Wook.pt - Entre Flor e Tempo

Entre Flor e Tempo

de Jaime Monteiro 

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Sinopse

Nome de música

Procurando palavras raras,
tecidas, encadeadas, justapostas,
nunca por nunca enredadas,
meu desejo seria elementar:
nelas verias a escolha e a vontade,
porque não habita cumes o acaso,
e tudo o que ali está aprendido
em prece há-de ser chamado
ao dia, à hora, aos momentos fulgurantes,
quando é imenso o peso da palavra escolhida
e como música ecoa no vale
o nome pronunciado.

Comentário
Uma amiga minha, de nome Cristina Santo confidenciou-me que, no que diz respeito a estas coisas de poesia, o que gostava era mesmo de a traficar. E um dia traficou um conjunto de poesias comigo, uma das quais era dedicada à Sofia. Dizia assim:

Sabias desse limiar
Que tece todos os possíveis

E desse fugaz encontro
Trazias o sol a brisa
O rumor do sonho e da memória
Na serena plenitude
Do poema

Hoje dizem que morreste
e eu corrijo
— Os poetas não morrem
apenas regressam
silenciosamente
a esse limiar fecundo
que também nós
pela mão deles
quisemos visitar

Não conheci pessoalmente Jaime Monteiro. E, no entanto, eis-me hoje incumbido de falar de alguém que me chega através da poesia, de alguém que descubro por uma poesia cuja força persiste activa, fazendo-nos reunir e partilhar os limiares que a habitam.

Para o conhecer fiz-me visitante das suas palavras, habitante dos seus ritmos, leitor da sua sensibilidade.

E quis-me deixar instruir, ou seja, preparar a escuta dócil que acolhe, abrir a curiosidade serena que perscruta pistas para trilhar caminhos, praticar o despojamento que abeira deslumbradamente a vez primeira, exercer o silêncio que quer ouvir na expectativa do encontro.

E, sobretudo, pretendi não ser critico literário, mas hospitaleiro, simplesmente hospitaleiro, para com uma vida outra, essa mesma que nos chega na partilha das palavras e sob o formato de um livro.

Hospitaleiro como o foram os amigos que quiserem reencontrar-se com o Jaime Monteiro — promovendo a edição do presente livro — e dizer, como a minha amiga:

— Os poetas não morrem
apenas regressam
silenciosamente
a esse limiar fecundo
que também nós
pela mão deles
quisemos visitar

Hospitaleiro, finalmente, no sentido em que Sousa Dias, no seu livro «Questão de estilo», fala de livros hospitaleiros. Vale a pena citar:

«os livros que contam não dão só a ler, ensinam a ler. Mais ainda, não ensinam apenas a ler mas a viver, são lições de vida, são vida também. Tais são os livros hospitaleiros. Tal é a hospitalidade própria do livro: o livro como meio e nunca como fim, o livro não como expressão narcísica do autor mas como passagem de vida, de uma corrente de vida anónima e fazendo apelo a leitores que saibam que o sentido de uma vida (assim como o sentido do acto de ler) é «adquirir o legado do outro e dar-lhe uma vida nova» (QE, p. 221).

Nos seus poemas, Jaime Monteiro não se furta a algumas reflexões sobre a própria poesia.

Em primeiro lugar, o próprio título da obra aponta, por um lado, para a ideia de que a poesia é uma arte que se tece na ardência da invenção, ou como diz o autor, é «música do pensamento capturada em palavras» (p. 13), mas, por outro, é sempre indissociável de uma circunstância, de um tempo em que se enraíza.

De certo modo, é esta duplicidade que habita a poesia de Jaime Monteiro: a transcendência visada pela força transfiguradora da arte poética e a imanência de uma inquietação que, no aqui e agora, vive a sua liberdade.

Não é por isso de estranhar que, apesar da unicidade da voz que escreve e das vivências de que esta voz não se podem dissociar, o mais importante na poesia seja a memória de vida anónima que ela carrega, o que leva Jaime Monteiro a escrever

«todo o poema escrito hoje é repetido
tentativa de ser escutado, unicamente» (p. 11)

Em segundo lugar, a poesia ocupa o lugar do mistério e do enigma:

«tudo são ideias sobre uma circunstância
um vazio pressentido esperando suas luzes» (p. 13.)

Por fim, a poesia é oferecimento da palavra inventada, rasgo esculpido nas palavras através do qual se habita uma visibilidade — ou mera penumbra — antes não entrevista. É também o lugar onde, de alguma maneira, se exprime produtivamente a dialéctica do finito e do infinito, do efémero e do eterno, uma tensão que atravessa quase em permanência a poesia do autor e que me parece bem patente na interrogativa do verso «quanto fruto dá a flor perene?» (p. 67)

Há também uma característica na poesia de Jaime Monteiro que a singulariza: ela é sempre atravessada por uma distância, seja esta marcada pela forma memorial, confrontativa, contemplativa, reflexiva, ou interrogativa. Não é uma poesia que flui na espontaneidade da pena, mas um trabalho de procura que tem sempre em atenção «o imenso peso da palavra escolhida» (p. 16).

Esta afirmação pode ser aliás confirmada pelo livro tal como o resolvemos editar, ou seja, incluindo nele versões de poemas perante os quais o autor reincidia para lhes procurar outras possibilidades de acuidade e de sonância.

Uma temática de eleição é a do amor. Como é que este é tratado?

Três versos podem ser definidores:

«assim rapidamente como a luz
a volúpia de amar é rosa exposta ao tempo,
extrema beleza aberta à morte» (p. 26)

Há também uma outra passagem que parece confirmar a hipótese:

«O pensamento persistente do amor cria distância,
transfigurando momentos carregados de promessas
desperdiçadas por nada, pequenas culpas repartidas,
desfazendo o prazer em curtos voos subalados;
contudo, vejo na recordação do teu sorriso
que chegará o dia da contrição plena e redentora
deixando na pele marcas de lágrimas escaldantes,
a hora de perguntarmos à divindade promitente
qual é esse planalto ideal para onde subiremos,
o íntimo e incomparável cimo de onde observemos
todo o tempo anterior aos nossos poemas,
quando éramos leves como borboletas em nossos dedos
e todas as alegrias de recordar e pensar o amor
estavam ainda acessíveis, sem engano ou mácula.» (p. 29)

Muitos dos poemas que encontramos neste livro referem-se ao tempo posterior ao amor, tempo ao qual cumpre emprestar a grandeza da arte e render o reconhecimento de que o amor não se pode controlar nem aprender, e que será sempre, de algum modo, «navegação cega» (p. 63).

Muitos deles acolhem dilaceramentos que não renegam ou lamentam, e que preferem erigir em monumentos poéticos, sublimar em flor numa estética existencial que lhe guarda a digna grandeza.

Aliás, outras temáticas abordadas noutros poemas, a par de serem marcados pela persistência de ressonâncias caóticas que nos enredam em universos semânticos muito peculiares, remetem também, frequentemente, para a referência aos deuses e ao divino em contraposição aos humanos e a sua frágil condição — fortes no sonho, mas ignorantes quanto ao destino.

«(…) perfeitos
foram os deuses
que tivemos enquanto
buscávamos para nós
os próprios nossos,
tocáveis divindades» (p. 24)

Na temática do amor — em que se fala da ilusão da força das carências (cf. p. 32) — a reflexão reincide frequentemente no peso das possibilidades abertas mas perdidas, o que leva o autor a citar o verso de Fernando Pessoa /Álvaro de Campos «Ah! Quem escreverá a história do que poderia ter sido?» (p. 34) ou a reincidir nesta ideia quando escreve o verso em que diz «desperdiçados excessivamente por nunca termos sido». Há assim, a par da exaltação de imagens que a memória petrificou como belas e sublimes, referências constantes ao lado da decadência que os ciclos do tempo acabam por impor às vivências (cf. p 80).

É na exposição de uma condição insuficiente e intermédia que o autor situa a dimensão da sua escrita e da sua existencia, aberta ao espanto, à reflexividade e às hipóteses de sentido construídas por vezes em diálogos intertextuais.

Não é pois num universo de estabilidade, linear e previsível, que se movem as palavras de Jaime Monteiro. O seu universo é sobretudo o da vida como jogo que os humanos não podem antecipar e, contudo, não deixam de expectar pelo sonho ou pela intuição do sentido.

Talvez por isso, também exista uma dimensão lúdica acentuada em alguns dos poemas do nosso autor.

Em particular, e com maior evidência, ele joga e brinca com as palavras e com os sentidos no poema intitulado Haikus. Talvez convenha lembrar aqui que o Haiku é uma forma poética e um tipo de poesia da cultura japonesa. Combina forma, conteúdo e linguagem de uma maneira minimalista mas compacta. O Haiku é composto por três linhas e não rima. O que se espera do Haiku é que através dele se pinte uma imagem mental no leitor. Esse é o desafio do Heiku: colocar o sentido e a imagética do poema na mente do leitor apenas através de 17 sílabas distribuídas por 3 linhas de poesia. É, pois, uma forma de poesia breve, depurada, bela, simples e fluente. É uma reacção estética minimalista à crescente consciência humana do caos. E no último dos Haikus, de novo o tema do amor na sua formulação paradoxal:

«primavera tardia
campos aguados
amores adiados» (43)

Mas o aspecto lúdico e experimentalista (há por exemplo dois poemas em que o autor joga graficamente com as letras do nome Lídia) —, tal como a apetência grandiloquente da sua poesia — o nível é elevado e a entrega humilde e sem disfarces —, está também patente quando o autor transporta alguns dos seus poemas para a sonância de outras línguas (o inglês e, ocasionalmente, o francês), como se a musicalidade da língua fosse um elemento de aconchego ou de reforço do dizer e do sentido que se busca no dizer.

O jogo das palavras é assim feito também de som e de sonâncias, do encosto inesperado de letras e de palavras, e o experimentalismo é aqui um modo de abeirar limiares abertos de possibilidades que não se esgotam.

Neste sentido, há uma dimensão de universalidade na escrita de Jaime Monteiro, mesmo quando escreve que toda a vida do poema é a sua circunstância (cf. 12): é que — diz-nos também — a poesia é uma arte conivente com os extremos e nela o pensamento é feito de música:

«poesia, a música do pensamento capturada em palavras
tal arte, que a amem por igual virtuosos e pecantes…»

Rui Grácio

Entre Flor e Tempo
de Jaime Monteiro 
ISBN: 9789896140632Edição ou reimpressão: Editor: Pé de Página EditoresIdioma: PortuguêsDimensões: 145 x 205 mm Encadernação: Capa mole Páginas: 128Tipo de Produto: Livro Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Poesia
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