A Viagem Vertical

by Enrique Vila-Matas
Publisher: Assírio & Alvim, July of 2015 ‧
Existe a viagem circular, a do regresso ao lugar de origem descrita na Odisseia. Mas existe também a viagem sem regresso, a odisseia retilínea e sem Ítaca que transforma um indivíduo que já não regressa a casa. Neste segundo registo deve incluir-se a original modalidade da viagem vertical, que é aquela que empreende o protagonista deste romance, no plano geográfico e no plano vital. Um dia depois de celebrar as suas bodas de ouro, Federico Mayol, homem de negócios, aficionado de póquer e nacionalista catalão, vê-se obrigado pela sua mulher, de forma surpreendente e absurda, a deixar para sempre o domicílio conjugal. Como sempre em Vila-Matas, pululam aqui os fantasmas da velhice, da solidão e da loucura, cintilando o dilema entre a sobrevivência e o suicídio. Este é um romance atlântico — uma viagem vertical com passagens por Barcelona, Porto, Lisboa e Madeira — mas também uma história de iniciação à cultura e um clássico romance de aprendizagem, não fosse o facto de o seu protagonista ter uma idade em que, geralmente, já ninguém aprende nada. No epicentro do livro está o drama de uma geração de espanhóis que, por causa da guerra civil e dos anos de barbárie que se lhe seguiram, viu truncadas a sua formação cultural e as liberdades republicanas.

A Viagem Vertical

by Enrique Vila-Matas

Property Description
ISBN: 978-972-37-1836-2
Publisher: Assírio & Alvim
Release Date: July of 2015
Language: Portuguese
Dimensions: 147 x 205 x 19 mm
Cover: Softcover
Pages: 240
Format: Book
Collection: Peninsulares
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Romance
EAN: 978972371836210
Recommended Minimum Age: Not applicable

Viagem sem retorno do septuagenário Mayol

C.L.

Prosa sofisticada e cheia de força de Vila-Matas, com traços de humor surpreendente. Um mergulho possível na arte de viver. "Desde sempre os homens têm ouvido vozes que os impelem a partir, dizendo-lhes que será por pouco tempo ou talvez para não voltar jamais..."

Viagem vertical é a viagem sem retorno

sofia

Viagem vertical é uma viagem que se inicia em Barcelona, terra da personagem e prossegue por Lisboa, Porto, Madeira terminando onde todas as viagens devem terminar: dentro de nós próprios. Mayol começa o seu percurso na idade em que as travessias, habitualmente estão a terminar e ensina-nos que ser velho é desistir de aprender, é ter medo do novo e das aventuras e deixar de cumprir os desejos mais profundos que existem em cada um de nós. Mayol tem tudo contra ele. É abandonado pela mulher, rejeitado pelos filhos e percebe que nunca fez nada por si. No entanto, parte, ruma à descoberta de si próprio e de tudo o que por várias razões deixou de fazer. Ao adormecer perguntou a si próprio por que razão não havemos de ser - homens, deuses, mundo- sonhos que alguém sonha, pensamentos que alguém pensa, situados sempre fora do que existe, e perguntou a si próprio por que não há-de ser esse alguém que não sonha nem pensa, ele próprio súbdito do abismo e da ficção. Viagem vertical é uma viagem, ao contrário da viagem circular, descrita na Odisseia, é uma viagem sem regresso.

Sempre à beira do abismo

SF

É Vila-Matas. E pouco mais se pode dizer. Sempre à beira do abismo no seu micro-cosmos literário. Uma viagem obrigatória.

A Viagem Vertical - Enrique Vila-Matas

Jorge Navarro

São poucos os livros que nos agarram de imediato a partir da primeira página mantendo a atenção do leitor até ao fim da narrativa. Os autores que conseguem tal proeza gozam de facto de mestria nas palavras e até genialidade capazes de prender o leitor com a mesma expetativa e inquietação ao longo de toda a obra. Em concreto, imaginemos o septuagenário Federico Mayol, o personagem principal de "A Viagem Vertical", no dia a seguir à comemoração das suas bodas de ouro do seu casamento ser surpreendido pelas seguintes palavras de Julia, sua esposa: "- Se não tivesse tanto medo de ti, se o meu caráter fosse mais forte, atrever-me-ia agora a dizer-te o quanto me gostaria… (…) Está bem (…), tu assim quiseste, querido. Queria dizer-te o muito que me gostaria que te fosses embora, que te fosses embora desta casa para sempre e me deixasses só. Sim, dir-te-ia isso. Vai-te embora, Federico. Deixa-me só, quero saber quem sou, preciso disso." (p. 11) Perante uma abordagem desta natureza, Federico Mayol mói e remói a cabeça em busca de explicações para o sucedido que é simultaneamente uma proposta-decisão da sua esposa Julia. Mayol deambula pelas ruas de Barcelona, de bar em bar, junto dos amigos e dos seus três filhos à procura de respostas, assim como de soluções face à sua atual situação de crise matrimonial que a bem da verdade se vai traduzir em crise existencial. Mayol vê-se confrontado com o facto de afinal os amigos não serem assim tão seus amigos até porque os seus verdadeiros amigos, os da velha guarda, esses já partiram, restando apenas os encontros com uns quantos amigos apenas como forma de passar o tempo, falando assim da atualidade política, e outras questiúnculas do quotidiano. Federico Mayol é um fervoroso nacionalista catalão tendo em tempos tido assento parlamentar naquela província independentemente de não ter tido estudos. Federico Mayol vive sob o estigma de ter-se visto obrigado a abandonar os estudos quando a escola foi encerrada quando era adolescente, nas vésperas da guerra civil (1936-1939), tornando-se um voluntário da Cruz Vermelha durante esse período conturbado da história do seu país. Mesmo com uma baixa escolaridade, Mayol é daqueles casos de sucesso em termos profissionais na medida em que construiu uma grande companhia de seguros cuja direção passou ao seu filho mais velho, agora com 50 anos de idade. É na sequência desta crise familiar que Mayol constata que afinal também os seus filhos vivem vidas com bastantes problemas sobretudo de natureza emocional, pois também o seu filho mais velho sente-se desiludido com o emprego e deixou de amar a sua esposa. Sente-se triste e frustrado, sentimentos que conduzem à incompreensão por parte de Mayol. Também a sua filha vive uma situação permanente de adultério consumado, o que colide com a formação de católico convicto de Mayol ainda que não seja praticante. Já o filho mais novo dedicou-se à pintura e é encarado por Mayol como uma pessoa desprezível na medida em que vive no mundo dos sonhos assumindo como novo desafio receber a inspiração através dos sonhos para pintar o Porto Metafísico pelo qual se tornou permanentemente obsessivo. Face a uma tomada de consciência de que a realidade dos outros à sua volta também aguarda por melhores dias, Mayol embarca então numa viagem à procura de si mesmo que tanto geográfica como pessoalmente se trata de uma viagem vertical, sem retorno, ao contrário da Odisseia que se apresenta como uma viagem circular, com retorno. Neste sentido, Mayol viaja até ao Porto, Lisboa e Madeira para périplos de curta e média duração até que o destino e o sentido da viagem o chamem para embarcar rumo a um próximo destino que possa servir de ancoradouro à sua própria vida. É neste contexto de viagem dentro da viagem que o leitor ganha consciência da importância do narrador que não está ali por acaso. O narrador vai desempenhar um papel deveras importante no decurso da narrativa, tornando-se a questão central da narrativa cabendo-lhe os desígnios de Mayol relativamente à concretização dos passos a dar a partir da Madeira. É com este narrador que "A Viagem Vertical" vai ganhando brilho tornando-se naquele género de obras que desperta o leitor para a arte da literatura não só no que respeita à história, à narrativa em si mesma, mas à forma como a narrativa é apresentada, tornando-se, nesta obra em particular, um livro dentro de outro livro que não só enaltece o escritor, mas também empolga o leitor graças à experiência estética que lhe é facultada. O acaso é uma das pedras de toque nesta obra na medida em que a descrição dos passos dos vários personagens é vista sob a forma de um jogo de computador em que o leitor consegue visualizar mentalmente. É esse acaso que faz e simultaneamente não faz a realidade acontecer. É também durante estas pequenas viagens dentro da grande viagem da vida que Mayol compreende que há um tempo para tudo na vida e que agora que está sozinho todo o tempo que constata que tem bastante dificuldade em fazer novas amizades e que as pessoas, à semelhança da sua longínqua e amada Barcelona, também vivem com as suas tristezas e frustrações. "No fim da minha vida, pensou Mayol, será melhor sentir o pó do caminho, a incerteza. E quando a morte me visitar, que me encontre sem família, sentindo apenas fadiga e sensação de perda e um alegre desconsolo. No fim de contas, sempre estive assim. Só." (p. 84) "Sentiu uma angústia cósmica, um desassossego profundo ao ver que não sabia para onde encaminhar os seus passos, a sua vida." (p. 121) Entre uma Lisboa cuja localização geográfica alude a uma cidade em que nunca se sabe se é o início ou o fim de uma viagem, e uma Madeira com inúmeras alusões de Platão à Atlântida, o mítico continente afundado, levanta-se uma outra questão fundamental, a importância do lugar e a necessidade constante de o homem sentir que ocupa um lugar no mundo em que vive. É neste sentido que é apresentada a tese do "homem fora do lugar", pois, segundo Mayol, "sem querer, [Julia] fez-me um pequeno favor ao transformar-me em alguém consciente de ser um homem fora do lugar. Porque isso é o que sou. Um velho, um homem fora do lugar." (p. 54) Em sentido mais alargado, Mayol vai mais longe ao afirmar "(…) Só os velhos são verdadeiros homens, pois estão fora de lugar. Que absurdo pensar que um homem deve ocupar um lugar na vida, que absurdo, e no entanto muitos jovens acham que têm de lutar para ter um lugar no mundo, um sítio que não existe porque todos os homens estão fora de lugar, mas só os velhos o sabem e por isso têm a possibilidade de sentir-se felizes ao saber-se fora do mundo e afundando-se cada dia mais no seu atraente abismo próprio. Além disso, pensava Mayol, os velhos podem enganar a morte e jogar com ela imitando a astúcia enganosa da vida." (pp. 201-202) Este "abismo próprio" é nada mais que a própria "Viagem Vertical" a que todos estamos sujeitos, em que toda a humanidade embarcou, e simultaneamente o espaço e o tempo em que pode ser feliz.

ABOUT THE AUTHOR

Enrique Vila-Matas

Enrique Vila-Matas (Barcelona, 1948) é um dos mais consagrados escritores espanhóis da atualidade.
Traduzido em 37 línguas, da sua vasta obra destacam-se História Abreviada da Literatura Portátil, Suicídios Exemplares, Filhos sem Filhos, Bartleby & Companhia, O Mal de Montano, Doutor Pasavento, Paris nunca Se Acaba, Exploradores do Abismo, Diário Volúvel, Dublinesca, Chet Baker Pensa na Sua Arte, Ar de Dylan, Kassel não Convida à Lógica, Marienbad Eléctrico, Mac e o Seu Contratempo, Esta Bruma Insensata e Montevideu (considerado livro do ano pelo El Mundo, em 2022).
Cavaleiro da Legião de Honra francesa, recebeu os mais importantes prémios literários, entre os quais o Prémio FIL, o Prémio Rómulo Gallegos, o Prix Médicis Étranger, o Prémio Nacional de Cultura da Catalunha, o Prémio da Real Academia Espanhola e o Prix du Meilleur Livre Étranger.
Cânone de Câmara Escura é o seu mais recente romance.

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