A Escavação

by Andrei Platonov
Publisher: Antígona, October of 2011 ‧
A Escavação, obra-prima de Platónov, é um perturbador romance distópico que retrata um grupo de operários que escava os alicerces de um monstruoso edifício: a casa do proletariado, promessa de um futuro risonho convertida num atroz abismo que suga impiedosamente vidas e almas. Violenta crítica à construção do socialismo soviético e negra reflexão sobre o preço do progresso e os sacrifícios aterradores feitos pelo povo em nome de objectivos absurdos, esta obra, escrita em 1930, foi somente publicada na Rússia em finais dos anos 80, devido à censura.

Andrei Platónov (1899-1951), autor inédito em Portugal, foi descoberto pelo Ocidente nas últimas décadas do século xx, fenómeno que se traduziu na reescrita da história da literatura russa.

A Escavação

by Andrei Platonov

Property Description
ISBN: 9789726082187
Publisher: Antígona
Release Date: October of 2011
Language: Portuguese
Dimensions: 129 x 208 x 11 mm
Cover: Softcover
Pages: 176
Format: Book
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Romance
EAN: 9789726082187

Escavação — A luta por uma utopia fracassada

João Matias

Platónov. Um nome a recordar. Confesso que parti para esta obra com enorme curiosidade e expectativa. Foi-me recomendada, há alguns anos, por uma pessoa admiradora da literatura russa para lá dos autores mais consagrados, e o fascínio com que falava desta negra distopia despertou imediatamente a minha atenção. Posso dizer que superou, em larga escala, todas as minhas expectativas. Uma linguagem melancólica, profunda, simbólica e carregada de absurdo, que expõe os limites da forma como o socialismo (entenda-se, o comunismo soviético) desumanizava o Homem através de utopias macabras e impossíveis de concretizar em nome de um ideal. Neste pequeno livro acompanhamos um grupo de trabalhadores encarregados de escavar os alicerces de um enorme edifício proletário que serviria de albergue para as gerações futuras. Um trabalho que nunca chega verdadeiramente a concretizar-se. O fosso cresce, mas o edifício permanece sempre uma promessa. E é aí que Platónov se revela mestre. Numa escrita sem floreados, exprime a desumanização do Homem pelo trabalho, a crítica feroz a um sistema que sacrifica pessoas reais em nome de um futuro abstrato, que coloca a ideia acima da dignidade humana e transforma a esperança numa máquina de propaganda perversa. E as personagens? Voschev, despedido por pensar demais. A imagem de um homem inserido num regime de certezas absolutas que insiste em fazer perguntas. Nástia, a pequena criança, símbolo do futuro comunista, na qual toda a narrativa deposita a sua esperança. E o urso, talvez uma das figuras mais curiosas da obra, uma crítica severa que sugere que os próprios animais são mais autênticos do que os homens: não vivem de abstrações ideológicas, simplesmente existem. Nesse “fosso coletivo”, o trabalho torna-se absurdo, repetitivo, quase a única forma possível de viver. E, no fundo, talvez todos sejamos como Voschev e nos perguntemos continuamente: “Para que existe o homem?” Que obra incrível e poderosa.

Obra essencial

André Lamas Leite

Um livro fabuloso sobre o outro lado da revolução bolchevique e sobre a instauração do que se supunha ser um regime verdadeiramente comunista. As mortes, o sofrimento e a desconfiança geral como modo de governar, a par de uma credulidade tantas vezes infantil.

"Estaline é só uma gotinha menos bom do que Lenine"

He

Belíssimo retrato alegórico da vida quotidiana soviética, com laivos de existencialismo e uma fina capacidade satírica. No processo de escavação das fundações de uma "casa para o proletariado" deparamo-nos com a fome, a pobreza e o atraso intelectual dos operários, que seguem acriticamente as "directivas do Partido", numa vida desprovida de sentido para além do trabalho em prol do sonho socialista. Retórica soviética, propaganda e burocracia do Estado, colectivização e luta de classes são-nos apresentadas sob o olhar crítico e desencantado de Platonov, que narra com prosa escorreita e de grande beleza as agruras e sacrifícios impostos à sociedade russa após a revolução. Para os menos familiarizados com a história da URSS e com os planos quinquenais de Estaline talvez faça falta uma introdução a contextualizar a narrativa. Ainda assim, "A Escavação" é um livro imperdível (de um autor que desconhecia, mas que pretendo revisitar), naquela que me parece uma boa tradução de António Pescada. "O homem constrói uma casa, mas destrói-se a si mesmo. Quem viverá então?" "Trabalhas, trabalhas, e quando acabas de trabalhar até ao fim, quando sabes tudo, cansas-te e morres. Não cresças menina, porque isso é triste" "O cão está aborrecido: vive apenas por ter nascido, como eu." "Cada animal apanhou a porção de comida que podia... No pátio, abriram as bocas, o alimento caiu delas numa pilha central, e então o gado socializado dispôs-se em volta e começou a comer devagar, submetendo-se à disciplina de maneira organizada"

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Andrei Platonov

Andrei Platónov (1899-1951), inédito em Portugal até à publicação d’A Escavação (Antígona, 2011), foi descoberto pelo Ocidente apenas no fim do século xx, fenómeno que resultou na tradução de muitos dos seus livros e na reescrita da história da literatura russa. Foi um caloroso partidário da Revolução de 1917 e, embora poucos tenham escrito de forma tão cáustica e incisiva sobre as suas consequências catastróficas, manteve-se fiel ao sonho que a materializou.

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