Ana Sender

Quase sempre me custou manter-me quieta. Quando era pequena, a minha avó Dulce tentou ensinar-me a fazer correntes de croché, mas não tive paciência ou destreza suficiente para utilizar a agulha nem para passar à fase seguinte: fazer croché, mais e mais croché, como faziam ela, a minha mãe e a minha irmã. Conseguia concentrar-me, sim, era quando a minha avó nos contava uma história. Ela contava e tricotava, bordava, cosia… Às vezes, junto à lareira, e no verão, no pátio, a olhar para as estrelas e a espantar mosquitos. Para desenhar também há que saber estar quieta, com quase todo o corpo. E isso aprendi a fazê-lo por pura necessidade, para traçar os meus próprios mapas e percorrê-los, tal como elas traçavam os seus. Ainda não aprendi a fazer croché, mas tentei pintá-lo, embora qualquer parecença com a realidade seja pura coincidência.

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