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Vocês Sabem Do Que Estou A Falar (eBook)

de Octávio Machado 

3,99€
Disponibilidade Imediata
Ebook para wook reader
Sinopse

Octávio Machado é uma figura incontornável do futebol português, não só pelo seu percurso profissional como também pela personalidade forte que o caracteriza. Sempre o ouvimos dizer que um dia ia contar tudo o que sabia sobre o desporto favorito dos portugueses. Por isso este livro é tão aguardado. Um registo onde, finalmente, Octávio revela toda a verdade do mundo do futebol na primeira pessoa! O ambiente dos balneários do FC Porto e do Sporting, o convite para ser treinador-adjunto de Artur Jorge na Selecção Nacional (que não se concretizou, porque Octávio não quis dar uma entrevista elogiando os irmãos Oliveira), o caso da agressão de Sá Pinto a Artur Jorge e a Rui Águas, os factos que conduziram à substituição de Octávio por José Mourinho, assim como um capítulo dedicado a Joaquim Oliveira e à sua influência - nefasta segundo o biografado - no futebol português e outro sobre a promiscuidade das relações entre empresários de futebol e órgãos de comunicação social são apenas alguns dos factos relatados neste livro. Vocês Sabem do que Estou a Falar não é mais um livro sobre futebol. É uma viagem a um universo paralelo marcado pela mentira, corrupção e jogos de poder! Uma realidade sobre a qual muito se especula, mas quase ninguém tem coragem de falar...

Excertos
Sobre a sua passagem pelo FC Porto como jogador
"José Maria Pedroto tinha esse hábito, quando queria falar com alguém em particular, ficava à entrada da porta de acesso ao estádio, a fumar o seu irresistível cigarro. Ia eu a entrar quando ele me disse que precisava de falar comigo. Levou-me para o balneário, mandou sair o António Morais e o Hernâni Gonçalves e, de uma maneira que eu jamais esquecerei, abraçou-me e disse: "Olha Octávio, quero agradecer-te, demonstrar a minha gratidão, porque eu sei que vou ser campeão nacional, já ninguém me tira o título, e é graças a jogadores como tu, que são capazes de nas horas difíceis ir buscar tudo o que têm lá dentro, que eu vou ser campeão. O futebol é assim, geralmente os artistas nestas alturas falham sempre e tu conseguiste agarrar naquilo tudo e a equipa correspondeu." O artista é aquele jogador exibicionista que está sempre a fazer fintas, o brinca na areia, que é capaz de marcar quatro golos a uma pequena equipa, faz um brilharete, mas nos jogos de grande pressão desaparece, ninguém dá por ele. Nós tínhamos alguém assim na equipa: o António Oliveira."

Sobre António Oliveira
"Com o Oliveira a treinador a minha continuidade ficava de todo em todo afastada. Eu jamais faria parte de um grupo de trabalho que integrasse o António Oliveira. As relações entre nós nunca foram boas, em termos de postura na vida somos incompatíveis, vivemos em dois mundos completamente distintos, como do dia para a noite. A maneira como o Oliveira estava no futebol era absolutamente contrária à maneira como eu penso que se deve estar no futebol. Sou um defensor acérrimo do rigor, da disciplina, do cumprimento. O António Oliveira representa precisamente o oposto de tudo isso. Nos treinos, na observância dos horários, etc. Foi um grande jogador de futebol, um virtuoso, mas em termos de cultura profissional deixa muito a desejar."

Sobre a conquista pelo FC Porto da Taça dos Campeões, frente ao Bayern de Munique
"Tudo assim disposto e arranjado, no dia do jogo soou o alarme: o Juary tinha desaparecido. A hora do almoço aproximava-se e ninguém sabia do jogador. Até que foram dar com ele na sauna colectiva do hotel, conversando com o empregado do bar, que também era brasileiro. Dirigi-me ao jogador e disse-lhe: "Então tu, no dia da final, sabendo que há aqui jornalistas, vens meter-te na sauna? Tem vergonha!" Saí e fui ter com os jogadores ao restaurante. Pouco depois, o Juary apareceu, temeroso, e disse-me: "Mister, você já me tramou, não?" "Como?", perguntei-lhe. "Já foi fazer queixa ao Artur Jorge, não?" "Não, estás enganado. Não fiz queixa a ninguém. Agora, se o Artur Jorge precisar de ti logo à noite e se tu não corresponderes, nós é que vamos ter uma conversa, nós os dois, eu e tu. O que aconteceu fica entre nós. Agora, o exame é logo. Se o Artur Jorge precisar de ti, veremos." E assim foi, na segunda parte do jogo o Artur Jorge mandou entrar o jogador. O Juary fez o gosto ao pé, marcou o segundo golo do FC Porto e garantiu assim a conquista da primeira Taça dos Campeões para o clube das Antas. Antes disso, porém, as coisas não pareciam bem encaminhadas. Embora o FC Porto tivesse mostrado, nos primeiros 45 minutos, que estava ali para discutir o resultado, ao intervalo o Bayern ganhava por 1-0, golo de Ludwig Kogl aos 24 minutos. No balneário, o Artur Jorge limitou-se a dizer ao seus jogadores: "Temos 45 minutos para a glória. Portanto, desinibam-se, joguem, divirtam-se, façam aquilo que fazem todos os dias e seremos campeões da Europa." Por vezes, nas alturas importantes, nos momentos difíceis e decisivos, são as palavras simples, não tanto os grandes discursos, que surtem efeito e que têm mais impacto. E a verdade é que bastou aquela frase do treinador para motivar toda a equipa. A segunda parte do FC Porto foi fabulosa, todos nos recordamos desses momentos de grande futebol, a segurança defensiva, um guarda-redes inspiradíssimo, um ataque onde despontaram, em toda a sua dimensão, os génios do Madjer, do Futre ou do Juary. Não me esqueço, também, de um homem que na segunda parte assumiu as rédeas do jogo 'azul e branco', um jogador que podia ter chegado muito mais longe no futebol português, pois tinha qualidade para isso e para muito mais, e que acabou por ser decisivo nesse encontro: o médio Jaime Magalhães."

Sobre Pôncio Monteiro
"Nestas alturas, quando as equipas ganham, nunca faltam amigos, conselheiros, colaboradores, todos querem aparecer. Em tempo de borrasca, na tormenta, ninguém lhes punha os olhos em cima. Em tempo de bonança, era vê-los, pressurosos e diligentes, a dar ordens, esmerando-se por mostrar serviço. Casos do Wilson Brasil ou do Pôncio Monteiro, este último um eterno candidato à presidência do FC Porto, mas que foi sempre gozado pelo Pinto da Costa. Periodicamente, o Pinto da Costa diz que não se recandidata, o que faz com que os vice-presidentes, entre eles o Pôncio Monteiro, se vão digladiando para ver quem ganha posição. Depois de assistir, com visível gozo, a este espectáculo, o Pinto da Costa anuncia a recandidatura, obrigando assim os vice-presidentes a fazer marcha-atrás. O Pôncio Monteiro foi sempre uma pessoa incomodada, muito incomodada, em determinada altura até ciúmes dos vencimentos do Artur Jorge tinha, porque ele era o tesoureiro e sabia quanto é que o treinador ganhava. Noutra altura, ainda com Pedroto a treinador, teve a infeliz ideia de se incompatibilizar com um preparador físico do FC Porto, chamado João Mota: foi dizer ao Pinto da Costa que só continuaria como membro da direcção se o João Mota fosse embora. O Pinto da Costa foi ter com o Sr. Pedroto e disse-lhe o que se estava a passar. E Pedroto respondeu-lhe: "Já está tratado. Vai o Pôncio Monteiro embora." E o Pôncio Monteiro foi corrido das Antas. Nas entrevistas que dava, o Pôncio Monteiro referia-se ao presidente do FC Porto como o Sr. Costa. É óbvio que depois, com o passar do tempo, com o sucesso do FC Porto, o Pôncio foi alimentando, cada vez mais, a ambição de ser ele o próximo presidente do FC Porto. (...) Num dos programas ('Os Donos da Bola', transmitido pela SIC), em que o Pôncio Monteiro era o convidado, aconteceu algo que me fez perder as estribeiras. Sempre que eu dizia alguma coisa e que comentava os casos que a SIC tinha em cima da mesa, os árbitros, as viagens, a corrupção, etc., o Pôncio Monteiro lançava suspeitas quanto à veracidade das minhas afirmações, criava sombras à volta do que eu dizia, por outras palavras, insinuava que eu estava a mentir. Ao Pôncio Monteiro eu não podia admitir aquilo. Como aliás não admito a ninguém. Porque eu estive por dentro, vivi muitas daquelas situações de que se estava a falar, eles não. Eu falava com conhecimento de causa e nenhum interesse me movia naquilo que dizia. Nenhum! Aguentei as colheradas depreciativas do Pôncio durante algum tempo, até que a mostarda me chegou ao nariz. Tinha de deitar cá para fora a revolta que me ia na alma. Num dos intervalos do programa, interpelei-o de forma muito dura. Lembrei-lhe um episódio da vida dele. O Pôncio Monteiro, muitos anos antes, depois de um acidente grave, esteve às portas da morte, para sobreviver tinham de fazer-lhe uma transfusão de sangue. O João Mota, do FC Porto, quando soube disso, prestou-se de imediato a ir dar sangue ao hospital. Mais tarde, o Pôncio perseguiu o João Mota dentro do FC Porto, exigiu a sua saída do clube, isto na altura em que o Pedroto era treinador. O Pôncio disse que ou saía o Mota ou saía ele. Foi aí, como contei antes, que Pedroto disse que, sendo assim, estava tudo resolvido, saía o Pôncio. Uma pessoa que faz isto, que depois de ter sido salva com o sangue do outro, o persegue, o quer despedir do trabalho, é alguém que perde toda a autoridade moral para dizer seja o que for. Uma pessoa que é capaz de comportamentos como aquele merece todas as reservas. Agarrei-o pelo braço e disse-lhe à queima-roupa: "Tu não prestas, tu foste capaz de perseguir uma pessoa que te ajudou da maneira que sabemos, portanto está calado, não digas nada. Olha para mim, olhos nos olhos. Tu nem profissão tens, a tua profissão é ser filho de quem és, o teu pai, sim, é um senhor, um gentleman." Atrapalhado, o Pôncio calou-se, ficou com falta de ar. O Schnitzer, ao assistir àquilo, disse-me: "Octávio, ainda matas o homem." "Mato o homem?!", perguntei eu, "mas qual homem?! Isto é um cobarde."

Sobre as tarefas de adjunto de Artur Jorge no FC Porto
"Pela maneira como o Artur Jorge agarrou na equipa, pela introdução de novas variantes de treino, pela forma como soube dar continuidade ao que vinha de trás, começou a perceber-se que um novo FC Porto estava a nascer: o Artur Jorge como treinador principal, eu como adjunto, com a missão, entre outras, de observar jogadores e treinar os guarda-redes (...). Acabou-se com certos hábitos instalados, o que não agradou a todos, claro. Há sempre alguns que são alérgicos a mudanças, que se sentem incomodados, e por isso houve quem quisesse contestar os meus níveis de exigência. Ao contrário do que muitos diziam, nunca fui a casa dos jogadores, como uma sentinela, fazer a ronda, verificar se já estavam a dormir. Claro que os jogadores têm de respeitar as horas do recolher, não é que houvesse horas específicas para estar a dormir, mas havia que evitar as horas impróprias. Nos estágios ia a todos os quartos, às onze da noite, para entregar o programa do dia seguinte, ver se não faltava nada aos jogadores e desejar-lhes boa noite. Sempre foi um hábito meu acompanhar a equipa médica na visita aos quartos, na hora do recolher. Algo de que sempre gostei quando também eu era jogador. São pormenores como estes que criam uma relação de proximidade com o grupo, o que serviu também para compensar um certo afastamento do Artur Jorge em relação aos jogadores. (...) Nesta fase em que fomos campeões da Europa, o FC Porto, naturalmente, era o clube com mais jogadores na Selecção Nacional. E eu passei a fazer também o acompanhamento da selecção, para que os jogadores se sentissem apoiados pelo clube. Muitas vezes pernoitávamos em Lisboa, ficávamos todos no mesmo hotel, eu ia com eles para gerir e evitar, sobretudo, a exposição mediática. Mais uma vez se especulou, foi afirmado que eu acompanhava a Selecção Nacional apenas para controlar os jogadores do FC Porto, impedi-los de cair em situações como aquela que aconteceu neste último Mundial, na Alemanha, quando saiu a notícia da noitada do Simão Sabrosa e do Boa Morte. Digam o que disserem, a verdade é que estas coisas não podem acontecer, são inadmissíveis, é preciso apostar na prevenção. Cabe na cabeça de alguém, por exemplo, marcar o estágio da Selecção Nacional, para o Mundial da Coreia de 2002, em Macau, famosa pelo jogo e pela prostituição? Quando se programa todo um trabalho de preparação para um evento como o Mundial e não se tem em conta esses aspectos - a ocasião faz o ladrão - só pode dar naquilo que deu: uma prestação deplorável! Há quem diga até que a Selecção Nacional lançou a moda, em Macau, de ir para a praia às 4 da manhã... Ora, aconteceu o que aconteceu e nunca foram abertos inquéritos? A Federação não faz absolutamente nada?"

Sobre Artur Jorge
(...) "Eram coisas como estas que faziam com que o Artur Jorge se afastasse um bocado do grupo, se isolasse. Por exemplo, nos jogos fora, quando a equipa não ganhava ou o resultado era menos bom, e constava que os sócios estavam no estádio à espera da equipa, o Artur Jorge nem sequer ia às Antas. No regresso, saía próximo da casa dele, que ficava perto da ponte da Arrábida. Ou seja, punha-se a bom recato. Os jogadores, como é óbvio, não gostavam disso. Dava a ideia de que o treinador estava a fugir às suas responsabilidades. E um líder é um líder, um chefe é um chefe, para o bem e para o mal, e enfrenta a realidade, mesmo que seja má. Ora, isto fragilizou um bocado o Artur Jorge, causou alguma erosão na relação dele com os jogadores. A verdade é que o Artur Jorge nunca conseguiu desenvolver com os jogadores uma relação de proximidade. Há uma mágoa que o Artur tem na vida e que é esta: na final da Taça dos Campeões, os jogadores não tiveram para com ele a manifestação que se vê na maior parte das equipas, ou seja, atirar o treinador ao ar. Não quer dizer que não tivessem grande respeito por ele. Talvez gostassem é que houvesse maior proximidade da parte do treinador. Não digo que fosse, como alguns chegaram a afirmar, porque o Artur se considerava um 'intelectual da bola'. Não. Aquela era a sua maneira de ser, que se acentuou, julgo, depois da ida dele para França, depois de ter sido rotulado de Rei. Isso talvez o tenha transformado um pouco. De qualquer forma, o Artur nunca foi dado a grandes manifestações, não é uma pessoa muito emotiva. Tentou sempre cultivar uma imagem diferente, quer enquanto jogador, quer enquanto treinador."

Sobre o convite para ser adjunto de Artur Jorge na Selecção Nacional
"Na casa do Bairro Alto, o Artur Jorge sugeriu-me, como sabia que havia problemas entre mim e os Oliveiras, que eu concedesse uma entrevista a dizer bem deles e tudo seria muito mais fácil. Curioso, curiosíssimo. Mas eu moita!, nem lhe respondi. Não lhe perguntei os porquês nem os paraquês. A questão nem sequer merecia comentários. A verdade é que não dei nenhuma entrevista a elogiar os Oliveiras. O motivo que levou o Artur a pedir-me para dar aquela entrevista só o próprio poderá esclarecer. (...) Findo o torneio de Génova, regressei a Portugal, já com a notícia do Raul Águas na selecção, e quando estava em Beja, num jogo particular do Sporting, sou confrontado com uma série de tentativas de telefonemas por parte do Artur Jorge. Nunca atendi o telefone. Entretanto, já o Roquette conversara com o Madaíl para saber o que havia de verdade no meio daquela história toda, porque o presidente do Sporting, como é óbvio, também se sentia incomodado. Como eu não atendia o telefone, o Artur ligou para o telemóvel do Carlos Janela, que me passou a chamada. Eu atendi e ele começou logo por me dizer: "A tua ida para a selecção complicou-se." Disse-lhe eu: "Tu deves estar a brincar comigo. Tu estás de certeza a brincar comigo. Eu não te admito uma coisa destas." "Pois, porque o Madaíl...", tentou ele dizer-me. "Mas qual Madaíl qual carapuça! O que é que o Madaíl tem a ver com isto, Artur? Não és tu o seleccionador? Não foste tu quem se armou em rei, não foste tu que disseste que quem escolhia as pessoas que iriam trabalhar contigo eras tu e apenas tu? Não disseste que eras tu quem mandava? E agora começas já a fragilizar-te logo à partida? Tu assim não tens futuro nenhum. E aquilo que tu queres é entregar a minha cabeça numa bandeja aos meus inimigos, aos gajos que querem dar cabo de mim. E tu fizeste-me passar por isto tudo. Disponibilizei-me para trabalhar contigo e agora passo pela vergonha de andar nas bocas do mundo, como se tivesse sido eu a oferecer-me para o lugar. Isto é inadmissível, eu não te admito isto! Vens tu falar do Madaíl... mas qual Madaíl?! Quando regressou da Suíça, o Madaíl disse ao Dr. Roquette que aceitava tudo aquilo que tu decidisses. Por que é que estás tu agora a refugiar-te no Madaíl?". "Ai o Madaíl disse isso?", perguntou ele. "Disse sim, disse ao Dr. Roquette e este contou-me a mim." "Então espera aí que eu vou falar com ele." Depois do jogo do Sporting em Beja, já estava eu em Palmela, recebi novo telefonema do Artur, agora num tom melífluo: "Octávio... desculpa lá... afinal não é possível... tu sabes que és o homem da minha confiança... vais continuar a ser o homem da minha confiança... eu vou falar contigo na mesma... quando for a altura das convocatórias vou precisar que me aconselhes..." Fiquei varado, não me controlei, disse-lhe: "Artur, vai pró caralho! Vai para a puta que te pariu. Eu não te admito uma coisa destas. Vai falar com o caralho. Comigo nunca mais falas." E assim se deu, com algum pesar meu, a ruptura definitiva com o Artur Jorge. Porque desta vez o Artur tinha deixado cair completamente a máscara."

Sobre a sua passagem pelo Sporting
"Havia ainda certos jogadores que só pensavam nos prémios de jogo, o Sporting era aliás a equipa que recebia mais prémios sem ganhar absolutamente nada. (...) Quando comecei a trabalhar em Alvalade, o Sporting parecia um clube social, todos os dias o chão daquele balneário ficava ladrilhado de convites para inaugurações disto e inaugurações daquilo. E alertei-os para o facto de o Sporting não poder continuar a proceder daquela maneira: "Desculpem lá, não pode ser. Eu fico com a sensação de que vocês vêm treinar para depois irem à inauguração de qualquer coisa, parece que o treino é onde vocês vêm passar um bocado, só para preparar a noite e ver onde é que se vai, à inauguração da discoteca tal, à festa do bar tal, à passagem de modelos tal... Não, não pode ser! Porque as sobremesas nesses sítios são ácidas. Vocês não podem passar por um clube desta dimensão e não ficarem na história do Sporting. Vocês têm de ganhar coisas." Havia dirigentes que não compreendiam que ter um balneário a receber dez convites por noite não pode ser o objectivo de uma equipa de futebol profissional, mais a mais num clube como o Sporting. É admissível, por exemplo, que nas reuniões entre a equipa técnica e os jogadores apareça um alto funcionário do clube a entregar convites para a inauguração disto e daquilo? Não podia ser! Não é esta a forma de estar numa equipa de alto nível competitivo.
(...) Hoje, reflectindo sobre tudo isto, chego à conclusão que ter saído do Sporting foi o maior erro da minha carreira. Sinceramente, não devia ter abandonado o clube naquela altura, devia ter denunciado as manobras do Norton de Matos. Em termos de gestão da minha carreira, eu devia ter enfrentado pessoas como o Norton. O Sporting ficava mais bem servido sem o Norton de Matos. Por exemplo, enquanto eu tinha esta mentalidade de não querer saber de contratos, de nunca ter assinado um documento, de não querer receber mais um tostão para lá do meu último dia de trabalho, apesar de ainda ter contrato por mais tempo, havia outros, como o Norton de Matos, que até os pneus do carro queriam meter nas contas do Sporting."

Sobre José Mourinho
"O José Mourinho viveu sempre, desde o berço, próximo do futebol. Foi jogador do Rio Ave, acompanhou muito o pai, teve vivência do balneário, uma mais-valia que muito poucos tiveram, e soube aproveitar isso. É um treinador de qualidade indiscutível. Não é isso que está em causa. O que eu jamais aceitarei e desculparei é a atitude dele. Porque o Mourinho, eticamente, não me respeitou. Assinou contrato com um clube sabendo que eu ainda era o treinador. Isso é eticamente correcto? Eu não comungo desses valores, nunca fiz isso com ninguém e tive oportunidade de o fazer mais de cem vezes. Não lhe quero nenhum mal, pelo contrário, desejo que ele tenha uma carreira muito larga e muito longa, para bem do futebol nacional e para bem do distrito onde ele nasceu, que também é o meu, ficarei satisfeito por isso. Agora, ele tem de me respeitar. Reconheço a qualidade dele, está a fazer carreira e a bater-se por ela, mas penso que uma pessoa pode chegar onde ele chegou sem fazer o que ele me fez."

Sobre Joaquim Oliveira
"Conheci o Joaquim Oliveira no FC Porto, apenas como irmão do jogador António Oliveira. Nessa altura, era um adepto como outro qualquer, sem influência nenhuma, não contava nem para o totobola. (...) Aos poucos, começou a crescer, primeiro no Sporting, quando o poder do futebol estava em Lisboa, depois no FC Porto, quando esse mesmo poder se transferiu para o Norte do País. (...) Começou a ser presença assídua nas viagens do FC Porto, estratégia natural para quem pretendia alargar a sua malha de influências. Com o Artur Jorge como treinador, tornou-se habitual a presença tanto do Joaquim como do António Oliveira junto da comitiva do Porto, principalmente nos jogos internacionais. Os laços entre o presidente e o empresário estreitaram-se numa altura em que o clube estava a viver uma crise financeira. O Joaquim Oliveira ofereceu-se então para resolver os problemas de gestão do FC Porto. De empresário de jogadores passou a negociar contratos de publicidade e das transmissões televisivas. (...) O Joaquim Oliveira é uma pessoa poderosíssima, com muita influência nos destinos do futebol português. E se a partir de certa altura começou a ser frequência assídua nos corredores do estádio das Antas, nem sempre foi assim. Quando o poder estava no Sul, o Joaquim Oliveira batia palmas e bebia champagne no Procópio sempre que o FC Porto perdia. Não é verdade, senhor Pinto da Costa? Tanto assim era que num Covilhã-FC Porto, o Joaquim Oliveira foi obrigado a refugiar-se num café para se proteger da ira dos adeptos portistas. Como o mundo dá muitas voltas, o Joaquim Oliveira receberia mais tarde o Dragão de Ouro. No início, o Pinto da Costa considerava-o o inimigo número um do FC Porto. Depois, quando precisou de dinheiro, abriu a porta ao adversário, levou-o para dentro da própria casa. (...) Há que reconhecer, porém, os atributos negociais do Joaquim Oliveira. Numa indústria na bancarrota, como é o futebol, onde todas as empresas e clubes estão falidos ou à beira da falência, e perante uma televisão pública que chegou a apresentar mais de 140 milhões de contos de prejuízo, a verdade é que o Joaquim Oliveira conseguiu construir uma fortuna incalculável. Até parece que quanto mais dificuldades financeiras tiverem os clubes, mais o Joaquim Oliveira aumenta o seu poder e a sua riqueza. Quem souber como e porquê, que explique. Eu limito-me, aqui, a prestar-lhe a minha mais humilde homenagem..."

Sobre Pinto da Costa
(...) "Senti que havia algo no Pinto da Costa que não batia certo com o homem que conhecera enquanto chefe do departamento de futebol. Depois de reflectir maduramente, percebi que havia ali uma mudança, aquela conversa denunciava uma nova estrutura mental. O Pinto da Costa subiu às nuvens e começou a considerar-se Deus, quero dizer, julgava que era apenas ele, não os treinadores ou os jogadores, o responsável pelas vitórias do clube. Algo que todos, valha a verdade, inclusive eu, contribuímos para alimentar. De repente, na comunicação social, já não era o FC Porto do Pedroto, o FC Porto do Artur Jorge ou o FC Porto do Ivic, passava a ser, tão-só, o FC Porto do Pinto da Costa. Entre os adversários - em particular Benfica e Sporting - também se dizia que o Pinto da Costa é que fazia e que dispunha, que o presidente do FC Porto comprava este e aquele, influenciava os resultados, controlava os árbitros, mais isto, mais aquilo... O que revelava, quanto a mim, a ausência de visão estratégica por parte dos dirigentes dos clubes de Lisboa, porque com aquela postura ajudaram a criar a ideia de um super-homem, a imagem de um grande líder carismático. Mais tarde, quando o José Mourinho foi para o FC Porto, essa imagem começou a esbater-se, já se falava do FC Porto do Mourinho, o que, na minha opinião, não terá agradado ao Pinto da Costa. Toda a gente que conhecia o Pinto da Costa percebeu que mais tarde ou mais cedo o Mourinho tinha de sair. Essa poderá ter sido, quem sabe, uma das razões que explicam a bonomia com que o Pinto da Costa aceitou a saída do Mourinho para o Chelsea.(...) Quando conheci o Pinto da Costa, em 1975, ele conquistou-me pela palavra. Percorri com ele períodos difíceis, juntamente com muitas outras pessoas, conseguimos vitórias inesquecíveis. No entanto, o Pinto da Costa de hoje não tem nada que ver com esses tempos. Todos mudamos, é verdade, mas de forma tão radical, como aconteceu com o presidente do FC Porto, é algo que não compreendo. (...) Jamais perdoarei ao Pinto da Costa aquilo que ele me fez, a forma como contratou o José Mourinho. Nem na hora da morte, se ele morrer primeiro do que eu, passarei junto ao caixão para lhe dizer que está perdoado. Porque nem sequer irei ao funeral dele. (...) Há uma coisa que o Pinto da Costa, nem ninguém, consegue fazer: apagar o meu nome da história do FC Porto."

Sobre a sua condição actual
"Lembro-me de uma máxima do José Maria Pedroto, que assumi sempre: "Octávio, se quiseres continuar no futebol tens de arranjar uma vida fora do futebol, uma vida que te permita dizer não. Se o conseguires, eles vão insultar-te, mas vão respeitar-te".
(...) "Nada me pesa na consciência e, por isso, durmo todos os dias descansado. E nada do que está neste livro é mentira. Sei que corro muitos riscos ao descrever certos episódios que se passaram na minha vida profissional ligada ao futebol. Não tenho medo, nunca tive receio de assumir riscos. Andei em paradas muito altas, mas continuei sempre a lutar pelas coisas simples, correctas e justas."

Vocês Sabem Do Que Estou A Falar
ISBN: 9789722042901Edição ou reimpressão: Editor: Livros d'HojeIdioma: PortuguêsTipo de Produto: eBook Formato: ePUB i Classificação Temática: eBooks em Português > Literatura > Biografias
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Esta modalidade de checkout permite-lhe comprar em dois cliques, seguindo diretamente para a confirmação de encomenda.

COMO FUNCIONA?
A encomenda é pré-preenchida com os dados que habitualmente utiliza - morada faturação, morada de entrega, forma de envio e tipo de pagamento. Para finalizar o processo, necessita apenas de confirmar os dados.

POSSO UTILIZAR OS MEUS VALES?
Vales e outros descontos que se encontrem no prazo de validade, serão igualmente considerados automaticamente na encomenda.

CONSIGO ALTERAR OS DADOS DA ENCOMENDA?
Sim. Antes de confirmar, tem ainda a possibilidade de alterar todos os dados e opções de compra.

EXCEÇÕES
O botão do Checkout Expresso só será visível se:
  • Selecionar previamente, na Área Cliente, as moradas habituais de envio e de faturação;
  • Associar uma conta wallet, quando a morada de envio selecionada é no estrangeiro;
  • Não incluir artigos escolares na encomenda.