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Tema de capa Glória Póstuma
Fama e glória para além da morte
São três autores que estão a dar que falar. Já faleceram os três, mas isso não os impede de ombrearem com os mais mediáticos da actualidade. E o lançamento de inéditos, como é o caso do recentíssimo “O Terceiro Reich”, ajudam ao sucesso.
Texto Sara Figueiredo Costa
Um nome marcou o ano editorial em 2009: Roberto Bolaño. Já havia livros do autor chileno publicados em português (“A Estrela Distante” e “Os Detectives Selvagens”, ambos da Teorema, e “Nocturno Chileno”, na Gótica) mas “2666”, editado o ano passado pela Quetzal, foi um fenómeno sem comparação, tanto pela recepção unânime da crítica como pelo número de exemplares vendidos: 000000 em 0000 meses, um recorde absoluto para um livro com mais de mil páginas e uma leitura nada leve.
Bolaño já era lido antes de “2666”, mas os seus leitores eram uma espécie de nicho, um clube reduzido que conhecia a impressionante escrita do autor chileno. A sua fama mundial chegou depois da morte, aos 50 anos, em 2003, e chegou com “2666”, editado postumamente.
Na verdade, o autor queria que o livro, que deixou terminado antes de morrer, fosse editado em cinco volumes, correspondentes às cinco partes que compõem o romance, de modo a garantir rendimentos financeiros mais longos para os seus herdeiros, mas foram eles mesmos que decidiram editar tudo num único volume e a decisão, mesmo que contrária à vontade do autor, superou quaisquer expectativas de sucesso em todos os países onde o livro foi editado.
Com “O Terceiro Reich” (ver crítica nesta edição), que Bolaño deixou dactilografado e com emendas manuscritas, confirma-se a prolixidade póstuma do autor, e já se anunciam mais dois livros, “Diorama” e “Los Sinsabores del Verdadero Policía”, aguardados com ansiedade pelos milhares de leitores que Bolaño conquistou depois da sua morte.
Do frio da Suécia
Quando entregou os três pesados volumes da trilogia “Millenium” à sua editora, na Suécia, Stieg Larsson não podia imaginar que morreria pouco tempo depois, e muito menos que os seus livros se transformariam num sucesso à escala mundial. “Os Homens Que Odeiam as Mulheres”, “A Rapariga Que Sonhava Com uma Lata de Gasolina e um Fósforo” e “A Rainha no Palácio das Correntes de Ar” (editados em Portugal pela Oceanos) criaram uma legião de fãs e, com vinte milhões de livros vendidos, geraram fenómenos de dependência literária como há muito não se via, enquanto os volumes dois e três não chegavam às livrarias.
As investigações detectivescas de Mikael Blomkvist, jornalista, e Lisbeth Salander, hacker informática, envolvendo crimes de sangue e corrupção, transformaram Larsson num caso sério de fama póstuma, merecendo os elogios da crítica e do público, mas criaram igualmente uma espécie de sensação de orfandade, já que não há mais livros anunciados. Apesar disso, há um certo mistério envolvendo a possibilidade de existir um quarto volume a juntar à da trilogia (que assim passaria a tetralogia), mas o litígio entre a última companheira sentimental de Larsson e o resto da sua família não tem permitido esclarecer o único facto que importaria aos seus leitores.
Recentemente, o jornal sueco Dagens Nyheter chegou mesmo a levantar a suspeita de que Larsson não seria o autor dos livros, mas sim a sua companheira, enquanto Kurdo Baksi, um jornalista conhecido do escritor, publicou um livro dizendo que o verdadeiro autor da trilogia terá sido um jornalista medíocre, e não Larsson. Como se uma espécie de praga atingisse os escritores que morrem e cujo sucesso póstumo envolve muitos milhares de exemplares vendidos, tudo indica que as polémicas em torno do autor sueco prosseguirão nos próximos tempos. Nada que afecte os leitores, que continuarão a ter à disposição os três volumes que conquistaram o mundo e as tabelas de vendas de vários países.
Leia o artigo completo na edição de Março da revista Os Meus Livros
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Autor - Joana Amaral Dias
Loucos com História
De famosos e de loucos todos eles têm um pouco. Joana Amaral Dias colocou “Maníacos de Qualidade” (Fernando Pessoa, Marquês de Pombal, João César Monteiro ou D. Afonso VI, entre outros) no divã da psicologia.
Entrevista João Morales - Fotos Artur
Este livro utiliza material biográfico de várias personalidades, articulando-o com uma análise da perspectiva da psicóloga. Como procedeu à investigação biográfica?
A pesquisa foi essencial para recolher informação não apenas biográfica, como relativa ao contexto histórico de cada personalidade, de modo a traçar o trajecto social, familiar e individual. Assim, a investigação implicou a recolha de material na Torre do Tombo e na Biblioteca Nacional, para além, naturalmente, da análise de biografias e outros estudos históricos encontrados em livrarias e alfarrabistas.
Nessa pesquisa, qual foi a figura que mais a surpreendeu e porquê?
Antero. Pela brutalidade, ignorância, crueldade e impotência da Medicina e Psiquiatria da época.
Diversas opiniões sobre a sanidade de Fernando Pessoa tem sido avançadas ao longo dos anos. Encontrou pontos de contacto com alguma delas na sua análise?
Encontrei muitas divergências. Pessoa já foi classificado de fóbico, histérico, esquizofrénico ou ciclotímico, rotulado com quase tantas máscaras quanto os heterónimos que criou. Porém, em muitas dessas análises escapou o ponto nevrálgico da sua personalidade: o auto-engrandecimento. É possível que o facto de Pessoa ser hoje reconhecido como um autor essencial na literatura ocidental tenha obnubilado a importância dele mesmo se considerar grande, o Supra-Camões. Por outro lado, biógrafos como Gaspar Simões, que tiveram o mérito de projectar a obra, passaram uma imagem romanceada e trágica da sua vida, esculpiram o perfil de poeta maldito. Por fim, Pessoa escondeu-se sempre dentro da sua própria obra.
Seja como for, a omnipotência e auto-endeusamento eram traços fundamentais da sua personalidade. Traços infantis (essa ideia da criança de que tudo pode e tudo consegue) que o poeta guardou de uma primeira infância intacta, bem diferente dos anos que se seguiram, cravejados de mortes e perdas. Dessa fase em que, como ele próprio dizia “era feliz e ninguém estava morto”, Pessoa manteve a ideia dos pais ideais com a criança ideal, o presépio exemplar, através da sua obra. Se o seu trabalho fosse perfeito, todo o quadro se manteria ileso e puro. Contudo, tendo perdido quase tudo, quase tudo teve que inventar, quase tudo o poeta criou. Por isso, Pessoa dizia que, ou conseguiria ser “o manuscrito da vida” ou nada seria. Ou seja, a sua identidade não era psicológica, social, sexual, como a de todos os comuns mortais. A sua identidade era a sua própria obra.
Li neste livro algumas das frases mais duras já publicadas sobre João César Monteiro. A eterna questão da possibilidade – ou não – de separação entre o autor e a obra ocorreu-lhe durante esta escrita?
Durante muito tempo aceitou-se a fórmula de Octavio Paz: “Os poetas não têm biografia. A sua biografia é a sua obra”. E esse pudor inibiu muitas investigações biográficas. Todavia, conhecer a vida do autor não nos arreda da sua obra. Antes pelo contrário. Embora, a minha análise psicológica e psicopatológica de João César Monteiro (ou de Fernando Pessoa e Antero de Quental) não se baseie na obra mas, sobretudo, nos documentos biográficos (cartas, diários, testemunhos), não partilho desse pavor intelectual infundido por Octávio Paz até porque vida é obra e obra é vida. Uma explica a outra. Obra transfigura a vida e vice versa.
Leia a entrevista completa na edição de Março da revista Os Meus Livros
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Livro em análise
Intérprete e louva-a-deus
A primeira biografia de José Saramago oscila entre a necessidade de documentar o percurso de um dos grandes nomes da Literatura portuguesa e tentação de o entrosar num Olimpo pessoal.
Manuel Freire Santos
"«Superstar».Provavelmente, esta palavra não será a mais apropriada para descrever a potenciação da visibilidade mundial após ser laureado com o Nobel.(...) Talvez a designação de «intelectual total» que se tornou corrente na abordagem da biografia de Jean-Paul Sartre fosse mais adequada (...)Porém, preferimos conservar aqui «superstar» por acreditarmos que Saramago tem utilizado inteligentemente a visibilidade acrescida do Nobel para explorar os mass media e outras instituições burguesas como canais planetários(...) no contexto de alguém que se alcandorou ao raríssimo estatuto de «clássico contemporâneo»."
Discorrer de indecisão entre quais os epítetos mais adequados para José Saramago, inserida no capítulo "Todos os prémios", onde o biógrafo destaca a venda de livros nos indicadores que sustentam tal estatuto. Nessa "contabilidade algo fastidiosa e incerta", como reconhece, ressalta que os últimos números apontados para a venda em Portugal de “Memorial do Convento” são de um milhão (número que se fica a dever em boa parte ao facto de ser um obra adoptada no Ensino Secundário há mais de uma década). Quanto ao Nobel, ignora também as diferentes sensibilidades sobre a justeza ou não da sua atribuição. Tanto em Portugal – "a reacção foi praticamente consensual e não houve dissonâncias realmente dignas de grande registo, salvo talvez a da reconhecida escritora Maria Teresa Horta que se mostrou molestada por considerar que havia entre nós mulheres com obra bem melhor do que a de Saramago"; como no estrangeiro – "as reacções mais negativas vieram basicamente dos meios ultra-liberais norte-americanos e do arcaico Vaticano".
Ora, não é honesto reduzir a discordância a feministas, no caso português, e a franjas ultra-conservadoras no caso estrangeiro. Fui um dos presentes, em 2002 na Fundação Luso-Americana, na conferência que George Steiner proferiu – "Near Misses: The destiny of Portuguese Literature in English" – e aí o ouvi afirmar diplomaticamente na presença de Saramago que o Nobel deveria ter sido partilhado com António Lobo Antunes (é sabido que Steiner, um dos mais prestigiados ensaístas culturais e literários, não é nenhum representante da direita conservadora); e em Portugal sempre houve vozes importantes, várias de esquerda, que consideraram ser de justiça literária atribuir-se o Nobel a um poeta português, ou ainda a Lobo Antunes.
Conviria que João Marques Lopes, cuja formação é em Letras, reflectisse nas palavras de mestre Fernão Lopes: “assi em louvor como per contrairo, nunca per eles e dereitamente recontada; porque louvando-a, dizem sempre mais daquilo que e”.
Leia o artigo integral na edição de Março da revista Os Meus Livros
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